Homens e cães estão juntos há muito tempo. Desde que os homens primitivos começaram a alimentar os lobos com restos de comida e iniciaram o processo de domesticação, esta relação tem rendido bons frutos. De um lado o animal recebia fonte fácil de alimento, retribuindo ao homem com a proteção e o trabalho canino.
Entretanto, embora tenhamos amalgamado nossa própria existência a estes animais tão meigos e companheiros, as vezes nos esquecemos de suas origens e instintos. O Canis lupus familiaris, que compreende todas as raças de cães, descende diretamente da espécie Canis lupus também conhecido como lobo americano. Esta espécie ancestral apresentava características distintas, incluindo a habilidade de caçar em matilhas, sendo um predador eficiente e organizado.
Além disso, alguns indivíduos apresentavam selvajaria acima do normal, dada as regiões e ambientes hostis em que viviam. Embora os seres humanos tenham, após séculos e séculos, selecionado em sua maioria os animais mais dóceis e companheiros, parte destas características ancestrais ainda vive na maioria dos cães. Assim alguns animais são notoriamente mais agressivos que outros, necessitando, desta forma, de alguns cuidados especiais como focinheiras e adestramento profissional.
A seleção genética dos animais levou os seres humanos nos últimos séculos a escolherem algumas características que consideramos necessárias, mas isto não indica que inúmeras outras simplesmente desapareceram. Na Roma Antiga, os molossos italianos como o mastim napolitano eram escolhidos para lutar na arena contra ursos e touros. Assim força física e ferocidade eram quesitos essenciais aos antigos geneticistas que selecionavam os cães mais fortes da ninhada.
Nos dias de hoje existe uma miríade de cães de inúmeros tamanhos, cores e múltiplas habilidades, selecionados geneticamente de acordo com as necessidades humanas de cada região do planeta Terra. Existem cães pastores que podem cuidar de gado e ovelhas, cães de guarda que protegem casas e outros estabelecimentos, cachorros que guiam deficientes visuais e também cães de companhia que tornam a vida das pessoas mais felizes.
Além disso os cães contribuem diretamente para o desenvolvimento da ciência. A genômica dos cães tem sido extremamente estudada nos últimos anos afim de melhor compreender as nuances desta espécie tão associada a nossa. Em um projeto pioneiro conhecido como Projeto de Sequenciamento do Genoma Canino, desenvolvido em parceria junto ao Broad Institute que é sediado pelo MIT (Massachussets Institute of Technology) e pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos demonstram que a evolução dos cães está intimamente conectada a evolução dos seres humanos e o contrário também é verdade.
Adicionalmente, importantes genes têm sido mapeados neste projeto objetivando o entendimento de doenças que dividimos com os caninos como câncer, diabetes e epilepsia. Além disso o primeiro cão transgênico da raça Beagle, conhecido por Ruby Puppy ou filhote rubi, foi concebido produzindo proteínas fluorescentes afim de melhor entender o funcionamento de alguns genes nas células destes animais. Assim os cães fazem parte real de nossa sociedade sendo guardas, protetores ou mesmo contribuindo diretamente com a ciência.
Lendas como a Lassie, Benjie ou Beethoven permeiam a imaginação das pessoas criando mitificação fantástica de cães super-heróis. Este conceito imaginário faz que nos aproximemos ainda mais de nossos bons companheiros, respeitando a distinção e a complementariedade entre as nossas espécies. Anda assim um cachorro sempre será um cachorro embora algumas pessoas teimem em transformá-los em brinquedos, bibelôs ou mesmo em pseudo crianças mimadas. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.