Quando tentamos subverter a lei da oferta e procura, uma das coisas acontece: ou some o produto do mercado ou os preços explodem no mercado paralelo; muitas vezes, as duas coisas. Vive-se um faz de conta. O engraçado é que é um filme do qual já se sabe o final, mas insistimos em assistir de novo, na esperança que algo mude.
O que tudo isto tudo tem a ver com a energia elétrica? Então, estes reajustes da tarifa de energia elétrica que estamos vivenciando (digo vivenciando, por que faz parte de nossas vidas) é o final do filme que já assistimos, mas insistimos em achar que desta vez vai ser diferente.
Para entender melhor este reajuste, que ainda não acabou, é preciso voltar um pouco no passado recente em que assistimos 2013 e 2014 com poucas chuvas, mas nem isto fez com que as autoridades de gestão energética do país deixassem de propor uma redução de tarifas.
Considerando que temos na hidroeletricidade algo em torno de 70% da produção da energia elétrica que consumimos, por si só o momento exigiria cautela. Está certo, isto já foi dito. Não satisfeitos, optamos por financiar eletrodomésticos com juros do setor imobiliário em programa oficial de aquisição de imóveis. Tem mais: a redução de IPI na linha branca ajudou a incrementar mais consumo de energia no país. Neste momento o leitor deve estar pensando: “...mas estes novos produtos não são mais eficientes e coisa e tal?”. Lembrem-se: somos um país solidário. Nos países desenvolvidos, eletrodoméstico “velho” vira produto de reciclagem; no Brasil, colocamos na varanda do fundo, doamos para um parente, um vizinho, vendemos para os móveis usados. Portanto, o sistema “ganha” a carga de um novo produto sem que o velho, pouco eficiente, seja descartado.
O fato é que precisamos olhar o consumo de energia elétrica de uma forma diferente. Temos visto na mídia boas e instrutivas matérias como aferir e fazer uso racional da energia. É suficiente? Definitivamente não! É preciso massificar iniciativas que já estão acontecendo no país e que já são comuns no mundo dito desenvolvido. Não podemos abdicar de estarmos integrados a este bloco, pois estamos entre as 10 maiores economias do mundo. Não é pouco!
Tenho plena convicção de que um empresário prefere pagar em um insumo $ 130 unidades monetárias de forma permanente, que lhe permite o planejamento de longo prazo, a uma pechincha de $ 90 unidades monetárias que no outro ano pode estar custando $ 200.
Neste sentido, recomendo um olhar para uma outra forma de consumo de energia: i) os processos produtivos internos; ii) fontes renováveis que tem no uso da rede elétrica incentivos para busca do ganho de escala; iii) geração distribuída, onde a fonte de suprimento está próxima ao centro de carga, que, a despeito de um custo maior, ganhar-se-á com a redução do custo de transporte, bem como ganhos ambientais que que virão como fator compensador.
E, por ora finalmente: pensarmos de forma permanente na diversificação das fontes de geração, porque hoje somos um país de modismos: moda da biomassa, moda da eólica, moda da fotovoltaica. É possível e rigorosamente necessário conviver e contar com todas as fontes de forma consistente, mas este é tema para uma outra ocasião.