Tentar compreender o papel da arte na vida das pessoas é perda de tempo, no entanto, todos sabemos que algum há de haver. Caso contrário, bastaria nascer, crescer e morrer. Um tédio só.
Uma das principais causas da presença da arte em nossas vidas está relacionada aos afetos. No meu velho dicionário de latim, aprendo que o substantivo affectus, afeição, paixão, tem a mesma raiz que affecto, o verbo ambicionar, pretender. Resta ensimesmar. “Nós não lemos e escrevemos poesia porque é bonito. Nós lemos e escrevemos poesia porque pertencemos à raça humana, e a raça humana está cheia de paixão. Medicina, direito e engenharia são ambições nobres e necessárias. Mas poesia, beleza, romance, amor? É para isso que ficamos vivos.”
Quem viu deve se lembrar destas palavras do professor de literatura no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Uma reverência à liberdade de pensamento e ao poeta das “Folhas de Relva”, Walt Whitman, que dizia: “eu me planto no chão para crescer com a relva que eu amo: quando vocês de novo me quiserem, é só me procurarem debaixo das solas dos seus sapatos”.
O recorte do filme me foi enviado por uma amiga para lembrar os velhos tempos. Fiquei comovida, porque, para mim e para muitos que ali estiveram, as leituras de poemas, romances e peças de teatro foram momentos desconcertantes na repetição do nosso dia a dia. Hoje, são marcas dos nossos afetos. Assim, posso pensar que uma coisa leva à outra.
Outro amigo resumiu a passagem e a permanência daqueles dias assim: não fossem as aulas, não teria vencido o dragão, passado pelo gato preto, ouvido o grasnar do corvo, embarcado no barco bêbado, colhido aquelas flores da maldade e chegado aonde chegamos. A paixão, que nunca nos falta, pretende sempre o objeto do desejo. É esta mesma ambição que desencadeia as narrativas.
Para havê-las é necessário que uma regra tenha sido violada, um dano causado, o processo de sua reparação e a recompensa. Este é o caso, evidentemente, das narrativas populares, dos contos de fadas.
Nada a ver com o que ocorre no romance moderno e, menos ainda, no contemporâneo. Mas a relação entre paixão e ambição é a mesma. O modo de apreender é que muda. Com afeto (e com açúcar, por que não?) é possível constituir momentos de leveza extrema, tão extrema que até Medusa se recusaria a olhar para eles.
É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma, diz Paul Valéry. E desbancar a tristeza que, sem peso, vira melancolia. Assim, a história da arte é uma história de coisas banais potencializadas pelo fazer artístico.
É neste quadro que as tensões são transformadas e que as sensações encontram na alma uma disponibilidade mágica para fruir e fazer de nós seres eternos como as histórias das 1.001 noites. É como deitar no chão e olhar os “Continentes” e “As Nuvens”, de Rivane Neuenschwander, no Inhotim, ou as pipas coloridas “Do Nascer ao Pôr do Sol”, de Laura Belém. São experiências de transparência, leveza e sentimento. Tudo o que faz da arte algo eterno e inexplicavelmente necessário.