Eles se conheceram quando prestavam o serviço militar no Exército. Convivendo diariamente no mesmo pelotão, começaram uma amizade que foi se fortalecendo ao longo dos meses.
Descobriram muitas afinidades entre eles, como o fato de serem os dois únicos recrutas do contingente com escolaridade completa até o segundo grau, o normal para a idade dos incorporados, quando o restante não concluíra o primeiro grau ou nem mesmo sabia ler e escrever. Gostavam de literatura e cinema e conversavam muito a respeito dessas atividades culturais.
Ambos eram originários de famílias de classe média, um deles com pai pequeno comerciante e o outro filho de contabilista com seu próprio escritório. Os dois tinham planos de, ao concluir o serviço militar, ingressar num curso de Direito, com o objetivo de se tornarem advogados. Ambos foram matriculados em curso de formação de graduados, na área de saúde, concluindo-o e recebendo as divisas de cabos enfermeiros, atividade que passaram a exercer no quartel até o final do período do serviço militar. Não escolheram essa qualificação nem lhes foi dada qualquer explicação pela designação por parte dos superiores.
Desligados da caserna e contemplados com a condição de reservistas, concretizaram o projeto de se tornarem advogados, formando-se bacharéis em Direito pela mesma escola e obtendo o registro profissional na mesma ocasião. Feito isso, tornaram-se sócios com um bem instalado escritório, que logo obteve sucesso, angariando boa clientela e, por consequência, ganhando muito dinheiro.
As linhas paralelas separaram-se cerca de cinco anos após o início da sociedade. Um deles preferia as ações cíveis, especializando-se no Direito de Família e de Sucessões; o outro dirigiu sua atuação para a área criminal, defendendo clientes envolvidos em homicídios no juízo singular e no Tribunal do Júri. Também tinha uma variada clientela constituída de contrabandistas e traficantes de drogas.
O civilista, jovem e bem apessoado, fazia sucesso entre a clientela feminina, acabando por deixar-se seduzir por uma jovem na casa dos trinta anos de idade, casada com um rico fazendeiro. O caso durou um bom tempo, pois o marido viajava constantemente para suas fazendas no Pantanal, onde se demorava por semanas seguidas. Certo dia, porém, ele regressou antes da data anunciada, chegou em casa tarde da noite e flagrou os pombinhos dormindo pesadamente na cama do casal: o desfecho disso todo mundo conhece.
O criminalista, por sua vez, movido por desmedia ambição, ao ver a facilidade com que seus clientes ganhavam fortunas, acabou por se envolver nas atividades de alguns deles, tornando-se sócio e dando-lhes cobertura e proteção. Na ajuda a seus clientes e sócios, denunciava a autoridades policiais os concorrentes, que, obviamente, não gostaram da coisa e resolveram eliminar o obstáculo: os restos calcinados de sua possante pick-up foram encontrados numa estrada vicinal perto da fazenda que acabara de adquirir. Dele, nunca mais se teve notícias.
*advogado e escritor ([email protected])