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Ruben Figueiró: "Pompilho 'Bateu as Botas'"

Ex-senador da República

Redação

23/03/2015 - 00h00

A derradeira vez que estive com o Pompilho ele me confessou que pouco lhe restava de vida nesta terra. Campereava por ela, das coxilhas do Rio Grande às do rio Brilhante, dos campos da Vacaria em nosso Estado. Desde o ano de 1917 como piá nasceu no município de Tupanciretã. Ainda jovem aos 12 anos desterneirado dos pais começou a conhecer e enfrentar as peleias do mundo cusco, que lá em sua querência pampeira era de competição aguerrida e desumana entre as milícias paramilitares de chimangos contra maragatos. As circunstâncias fê-lo maragato, pois peão do coronel Vitor Dumoncel, de Santa Barbara, aliado do famoso Coronel Firmino de Paula o chefão das chamadas “Forças do Norte” acantonadas até às margens do rio Uruguai.

Como ocorrera na Revolução Federalista de 1892, sangrenta por sinal, os “castilhistas chimangos” levaram a melhor e o Pompilho, no seu sotaque agauchado e com medo da “degola” (castigo tradicional em que o vencedor eliminava o vencido), picou a mula para as bandas seguras da fronteira do então Mato Grosso com o Paraguai, fixando-se nas regiões da Vacaria e do Serrote, hoje região dos municípios de Rio Brilhante e Maracaju. Foi quando o conheci lá pelo início da década de quarenta do século passado, ele peão de meu avô Ernesto Figueiró, na fazenda Santa Fé.

Pompilho, grande contador de “causos” ocorridos em seu Rio Grande, imaginação fertilíssima, imaginava detalhes da vida campeira, peleias políticas e de amores por chinocas, bombava com a sua destreza nas domas de burros e cavalos chucros, e os descrevia numa linguagem do homem rustido pelas intemperanças de sua vida de guasca. Eram momentos de gáudio para a peonada por ocasião das rodadas do “amargo” (chimarrão) no galpão da fazenda, sempre no clarear do dia. Suas fantasias a todos encantava. Nas minhas férias escolares era assistente assíduo das bravatas do Pompilho.

O Pompilho possuía firme posição política, fidelidade que trouxera dos pampas e jamais deixou de exercê-la à sua maneira voluntariosa e destemida. Eu mesmo, nas minhas campereadas político-partidárias ia ao seu encontro para ouvi-lo, isto ao longo de nossa convivência de muito além de meio século. Jamais afastou-se de suas origens maragatas, as testemunhava portando no pescoço o lenço vermelho característico da sina. Nunca chutou o balde, não era de lavar a mão, desinteressar-se, como também de colocar o pé na jaca, de cometer excessos. Conquistador desassombrado pelas chinocas, deixou um rastro de amores pelas canhadas percorridas; não era de segurar a vela pra ninguém, fazia questão de não abrir cancha...era o senhor do barraco – vangloriava-se!

Pompilho sempre zeloso de sua pilcha, vestia-se bem à moda gauchesca, sempre de bombacha, tirador, bota sanfonada, espora reluzente. Tinha carinho especial pelo seu pingo sempre bem aperado. Corajoso, não era de chorar a pitanga. Quando desafiado reagia em cima do laço. Dizia sempre, em momentos de ufania gauchesca que “era afiado como navalha de barbeiro caprichoso” !

Pompilho foi um gaudério, viajou muito, sempre firme nos arreios. Ouvi dele “fui valente e mais grosso que dedão de pé quebrado”. Assim conheci e admirei o meu amigo Pompilho. Bagual, gostava de um entrevero para dar “ uma peixada num contrário”. Repito, não era de chorar as pitangas. Espichou a canela, após viver intensamente a vida. Para muitos, como eu, deixa saudades!

 

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