Temos necessidade de certezas, a solidez da imutabilidade. Criamos hábitos, nos apegamos à rotina e, como num ritual, buscamos fazer as mesmas coisas, muitas vezes até nos condicionamos a sentir as mesmas emoções, na esperança de estabilidade, de permanência, de imortalidade. Somos assim, fazer o quê?
Vivemos uma realidade feita de acontecimentos que não passam de ilusões. Se olharmos mais de perto, veremos que nosso próprio corpo (pele e fígado, principalmente) produz novas células, regenera-se a cada ciclo, em constante renovação.
A pele de ontem, infelizmente, não é a mesma de hoje. Nem as rugas são as mesmas. Perdemos milhões de fios de cabelos todos os dias (e nem sempre notamos). Uma verdade absoluta pode tornar-se relativa conforme o entendimento se refina.
Sabemos que a vida é um fluxo constante de criações, transformações, finitudes. Então por que é tão difícil reconhecer as etapas e os ciclos que se encerram? Por que sempre insistimos em ficar mais um pouco? Ou por que não conseguimos desapegar, let it go? Talvez porque não conhecemos o que virá, o que chamamos de eterno medo do desconhecido. Melhor ficar numa situação – por pior que ela seja – que já conhecemos, dominamos – do que enfrentar aquilo que nunca vimos.
Não é tão simples quanto parece. Nem impossível quanto imaginamos. Mas requer sabedoria e aceitação absoluta das coisas como elas são. Fluir a cada passo, por menor que seja, buscar um ponto de equilíbrio original. Sem certezas, apenas confiança em seu instinto. Estes atos encerram uma beleza que vem do sentimento de “nunca mais”, de algo inusitado; a beleza da coisa rara, que não se repete, não se massifica, a beleza preciosa do efêmero. É isto que vemos quando aceitamos a impermanência das coisas.
Os orientais, sábios que são, costumam dizer que impermanência não é a destruição precipitada ou o viver ao sabor do vento. É nos educarmos para sermos mais flexíveis, flutuar no balé do viver em cada instante feito milagre. Ou como o poeta Fernando Pessoa escreveu, linda e profundamente: “Tudo quanto vive, vive porque muda. Muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”.
Por isto é tão importante encerrar os ciclos, reconhecer as etapas finalizadas. Viver o luto, sim, mas depois deixar que se vá, porque não é mais parte da nossa vida. Para o bem e para o mal, tudo passa. Foram estas as duas palavras que escrevi, certa vez, num bilhete ao meu filho que partia para terras estrangeiras.
Ele imaginou que as palavras eram para lembrá-lo de passar as roupas a ferro e jogou fora o bilhete. Mas isto não o livrou de vivenciar a experiência. Além de descobrir que existem roupas que não amarrotam, aprendeu a ficar atento a tudo que passa. O desapego é, sim, o primeiro sinal de amor.