Nestes momentos de crise que abalam as estruturas sócio-políticas de nosso país, a prudência, maior adversária da impulsividade, nos conduzem à lembrança de expressões notáveis registradas pela história contemporânea a indicar o caminho seguro onde não haja sobressaltos. A propósito lembro do inolvidável dr. Ulísses Guimarães, o senhor diretas e da Constituição Cidadã. Dizia ele que ao caminhar encontrando dificuldades procure um atalho.
A sabedoria do velho timoneiro, veio-me à luz ao ler no final da semana artigo do senador José Serra, cujo título encerra o teor esplêndido de seu conteúdo: “Vamos ocupar-nos da crise, não a crise de nós” ou seja, não devamos nos curvar a ela. Sabemos, ela está aí, “bufando atrás de nós”, como diria o saudoso amigo Pompilho, nem por isso temê-la.
O senador por São Paulo, embasado nesse propósito, desde o início de seu mandato, a 31 de janeiro último, ofereceu à apreciação do Congresso Nacional seis propostas que poderão provocar profundas mudanças no curso da política. Destas propostas, retirei uma para em rápidas pinceladas comentá-la, a da reforma política, mesmo que ela se inicie fatiada. Considero a reforma política o instrumento fundamental para proceder a oxigenação da mentalidade do eleitor abrindo-lhe um largo espaço, hoje inexistente engolfado nas cavernas de um pensamento político já anacrônico.
Pelo que se depreende do excelente artigo o senador Serra pressupõe como porta de entrada o estabelecimento já para as eleições próximas de 2016 da eleição distrital pura (voto majoritário) nos municípios com mais de 200 mil eleitores. Tome-se como exemplo a nossa capital, Campo Grande.
Para preencher as atuais 29 vagas da Câmara Municipal seriam definidos 29 distritos eleitorais, assim contempladas todas as regiões do município, inclusive os núcleos rurais, como Anhanduí, Indubrasil, Aguão e Rochedinho, diga-se que nunca tiveram na edilidade uma representação autêntica.
O processo de eleição distrital pelo espírito representativo de sua natureza já que o eleito teria compromissos inarredáveis e sob fiscalização permanente da população distrital, tem implícito a redução do custo das despesas eleitorais. Eis que elas tem acentuado o espírito partidário evitando-se o que é muito comum hoje, o individualismo dos candidatos que se sentem descompromissados com suas legendas partidárias. Seria um teste. Se aprovada a proposta do senador José Serra permitiria alongar mais um passo no processo para as futuras eleições de 2018 quando da renovação das representações estaduais e federais.
A manifestação popular de 15 de março pela sua autenticidade, clima cívico embora de insatisfação, mesmo irritação e revolta da população, revela um desejo insopitável por mudanças profundas na estrutura de nossas instituições democráticas e representativas. Creio que não se deva esquecer, nada obstante longe no tempo, o alerta do então presidente da Câmara dos Deputados, o mineiro Antônio Carlos de Andrade, em 1934, em época de ebulição idêntica a que hoje participamos : “façamos a revolução, antes que o povo a faça”. Ela vale tanto quanto aquela do dr Ulisses a indicar que a reforma política, mesmo fatiada, seria o atalho em busca de eleições realmente autênticas, claro sem os vícios que hoje as desvirtuam.