Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta quarta-feira: "Prazo para a proteção"

Editorial desta quarta-feira: "Prazo para a proteção"

Redação

15/04/2015 - 00h02

É difícil compreender por que os investimentos não avançam tendo em vista os repasses mensais altíssimos e o reajuste exorbitante concedido à Solurb no ano passado 

É lamentável acompanharmos o descaso que perdura anos em relação ao tratamento de lixo de Campo Grande. Impressiona ainda mais se mensurarmos os milhões que envolvem o contrato firmado entre a prefeitura da Capital e a CG Solurb, concessionária responsável pela coleta e destinação dos resíduos. Desta vez, o alerta volta porque o chorume - líquido tóxico produzido a partir da decomposição de matéria orgânica - parece estar atingindo o solo ou lençol freático, configurando crime ambiental. A poluição pode, inclusive, atingir o leito do Rio Anhanduí. A Justiça determinou verificação dos danos ambientais que podem estar sendo causados pela Lagoa de Decantação e também exige perícia em toda área do lixão.  Inaceitável que depois de tanto investimento e longos anos de espera estejamos enfrentando falhas tão primárias.

O lixão transformou-se em mais uma novela com capítulos que, infelizmente, decepcionam os cidadãos. Há uma série de promessas descumpridas. A começar pela reciclagem, cujos benefícios são extremamente destacados frequentemente, mas a implantação parece sempre utópica. Ainda em 2012, quando assumiu os trabalhos na cidade, a Solurb comprometeu-se a ampliar a coleta seletiva, mas descumpriu prazos e até agora não saiu do patamar inicial, mantendo a reciclagem em apenas doze bairros da cidade. A Usina de Tratamento de Resíduos (UTR), que teria como foco auxiliar na separação dos materiais, também não tem previsão para sair do papel, pois a obra segue emperrada há três anos. O local serviria para empregar os catadores que hoje precisam se submeter a atividades de risco em meio ao lixão.

É difícil compreender por que os investimentos não avançam tendo em vista os repasses mensais altíssimos e o reajuste exorbitante concedido à Solurb no ano passado. Há falhas contratuais, alvos de investigações, que também não caminham na celeridade que a questão exige. Enquanto isso, acompanhamos problemas ambientais gravíssimos que parecem não ter o devido controle das autoridades. O descaso com o lixo ocorre de forma semelhante em diversas outras cidades brasileiras. Basta constatarmos a falta de adesão e até mesmo de punição pelo descumprimento das exigências da Lei Nacional de Resíduos Sólidos. O prazo que havia sido estipulado venceu em agosto do ano passado, mas nem metade dos municípios havia cumprido as regras para acabar com a precariedade desses depósitos.

Em meio aos graves problemas no País, de crise financeira e política, a questão acabou ficando cada vez mais esquecida. Tantos pelos políticos como pelos próprios cidadãos, que diariamente dependem do serviço de coleta de lixo, mas pouco se preocupam se a destinação e tratamento estão sendo feitos da forma adequada. Cobramos mais saúde, segurança e educação, mas, também acabamos sendo negligentes com essa necessidade que afeta diretamente nosso cotidiano. Os prazos continuam sendo estendidos para atender as necessidades financeiras e outras “prioridades” do poder público, mas infelizmente o meio ambiente não pode esperar pela proteção que está sendo protelada. 
 

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