Que riqueza! Feliz daquele que não deixa morrer em si a criança que foi um dia.
Professora por vocação, nunca quis exercer outra profissão e comecei cedo, ainda quase uma garota de 17 anos, sendo muito feliz no meu espaço Sala de Aula por quase 40 anos.
Quando comecei, recém-saída da “escola normal” do Auxiliadora, trabalhei com crianças por sete anos, seis dos quais no Colégio Dom Bosco, na época apenas para meninos. Concluída minha formação acadêmica na FADAFI, hoje UCDB, por dois anos trabalhei com adolescentes e jovens do Ensino Médio, no Colégio Batista e, a partir de então, apenas com adultos universitários, na FUCMT e UFMS.
Os tempos eram outros, não havia televisão, a percepção de universo por aqui era estreita para a maioria de nós, tendo como canal de comunicação com o mundo apenas o rádio e os livros, grandes estimuladores da imaginação, com certeza, pela falta de imagens, deixadas para os cinemas, cujos filmes eram bem definidos para as respectivas faixas etárias e não disponíveis toda hora.
Naquela época, encaminhar a criança à escola, para as famílias mais esclarecidas, era inquestionável. Não tinha querer e a professora – de crianças e adolescentes – recebia, junto do cargo, a correspondente responsabilidade pelos alunos, que eram seus alunos, mesmo fora da escola, devendo ser cuidados em qualquer circunstância de risco ou desajuste ao esperado.
Professoras e mães comunicavam-se com frequência e liberdade sobre as “suas” crianças.
Na minha formação, no Auxiliadora, tive canto-orfeônico com a irmã Rosa, e cantar era uma das nossas rotinas. Quando dei início ao meu professorado, em vez de ensinar as crianças na base do medo e castigo, comum na época, utilizava-me do canto e do desenho. E amava os meus alunos.
Hoje, a relação professor-aluno modificou-se demais. Ouço relatos de indisciplina e desrespeito, de parte a parte, inimagináveis na minha história pedagógica, sem dizer que o carinho natural entre a professora e seus alunos, daquelas minhas turmas, “sexualizou-se” e o abraço e o beijinho da chegada não são mais permitidos, especialmente nas escolas públicas, para que não haja risco de que caia na malha fina do “assédio”. Que pena!
Lamento, porque daqui uns tantos anos, para estas professoras, não haverá a emoção de deparar-se com ex-alunos seus, já de cabelos brancos e com o rosto vincado pelos anos e dizer: “eu era apaixonado por você, por isso me comportava tão bem em suas aulas” ou “você sabe daquele aluno apaixonado pela professora?...”
Encontrar um menino de 8, 9 anos no coração de um homem, já no papel efetivo de avô, e ouvir dele uma declaração de amor que não se quebrou é uma grande felicidade, quando se tem a certeza de que ao professor cabe não só ensinar o conteúdo, mas cuidar de um ser humano com carinho, respeito, desejando o seu bem verdadeiro e saber que o seu modo de agir fez brotar nele sentimentos de amor, de ternura, de admiração, que com certeza lhe foram importantes e úteis ao longo de sua vida, é um grande presente.
É interessante, mas, das centenas de alunos que passaram na minha vida, são estas crianças que se cristalizaram no tempo, que mais me emocionam e eu tenho a felicidade de infindáveis vezes receber mimos assim e que me reforçam a convicção: EDUCAR É UM ATO DE AMOR, no sentido mais puro que esta palavra possa expressar, e é uma pena, repito, que às novas gerações esta oportunidade seja negada, porque alguém ultrapassou os limites, levando à negação deste sentimento para todos: professores e alunos.
Não sabem o que estão perdendo!