Nada justifica que a população acabe penalizada pelos profissionais que estão recebendo para atuar nos plantões. Essa, sem dúvida, não é a maneira correta de protestar.
Há unanimidade nas opiniões de que o atendimento na rede pública de saúde deixa muito a desejar. Pacientes, profissionais da área e até mesmo o poder público reconhecem a necessidade de evoluções. Entretanto, os campo-grandenses têm vivenciado situações ainda mais dramáticas nos últimos meses quando precisam procurar um posto de saúde. Infelizmente, a tendência é de piora. Médicos anunciaram greve para quarta-feira, dia 6, mas as queixas demonstram que a “operação tartaruga” nas unidades já começou.
No dia 12 de março, neste mesmo espaço, o Correio do Estado relatou algo positivo sobre o setor da saúde da Capital: as queixas de demora e peregrinação em busca de atendimento tinham diminuído depois da inauguração do Centro Municipal Pediátrico. Pouco tempo depois, no fim daquele mês, a situação começou a mudar e a redação começou a receber apelos dos leitores incomodados com a demora, inclusive nesse novo local. Também aumentaram as reclamações acerca da lotação e espera nas Unidades de Pronto Atendimento Médico (UPAs). No dia 15 de abril, por exemplo, mostramos o drama de quem aguardava no posto do Bairro Coophavila 2.
A reviravolta coincide com a queda de braço que vem sendo travada entre o Município e servidores. No período em que os funcionários aguardam reajustes salariais, a administração municipal encontra-se no limite de gastos com pessoal e enfrenta queda significativa da receita. Em razão disso, precisou cortar gratificações e reduzir plantões, medidas que atingiram em cheio os profissionais da saúde. Desde os primeiros anúncios, a população vem pagando o preço mais alto. Esse drama é relatado em reportagem na edição de hoje. Apesar do pouco movimento e da alegação de três médicos estarem de plantão, pacientes tiveram que aguardar mais de cinco horas por atendimento na UPA da Vila Almeida. Para quem passa todo esse tempo na sala de espera, sofrendo com dores e cansaço, é imcompreensível a demora ao saber que não há outras pessoas sendo atendidas no mesmo horário. Entretanto, fica complicado não estabelecer o paralelo entre os recentes cortes e os transtornos relatados no histórico de reportagens.
Em um cartaz afixado na porta dos postos, o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul justifica que os profissionais também são vítimas do descaso. De fato, precisariam de melhores condições de trabalho e acréscimos nas remunerações. Mas, nada justifica que a população acabe penalizada pelos profissionais que estão recebendo para atuar nos plantões. Essa, sem dúvida, não é a maneira correta de protestar.
A saúde deve ser a primeira preocupação, como consta no Juramento de Hipócrates. A prefeitura precisa adotar providências urgentes para que situações semelhantes não se repitam, buscando o diálogo com representantes dessa e de outras categorias que também ameaçam começar paralisações. A transparência em relação às finanças, mostrando os cortes que já foram feitos para conter as despesas precisam ser repassados aos funcionários para alcançar a compreensão, difícil porém necessária nesse período de crise que todo Brasil está enfrentando. Por mais que as reivindicações sejam corretas e legítimas, é preciso ponderar sobre os meios para conquistá-las.