Artigos e Opinião

OPINIÃO

Antonio Carlos Siufi Hindo: "Silêncio imperdoável"

Promotor de Justiça aposentado

Redação

08/05/2015 - 00h00

Ao não se pronunciar para a classe trabalhadora no seu dia, o 1º de Maio, além de quebrar uma tradição dos nossos sistemas, lá atrás o Parlamentarismo e, hoje,  o presidencialismo, a presidente Dilma Rousseff deixou mais pobre de esperança e de incerteza  todos que empurram  com o seu trabalho e com o seu suor o desenvolvimento  do nosso  país.

Nunca vi tamanha deselegância! Nem mesmo durante o regime da ditadura militar, em que as condições políticas eram totalmente adversas à que temos hoje, os generais presidentes, no curso de seus mandatos, deixaram de se  pronunciar  no Dia do Trabalhador, como sói acontecer com todos os líderes ao redor do mundo em relação ao seu povo.                     

Nada justifica tamanha omissão. A classe trabalhadora é o conjunto da nossa população. E não apenas aquela que vive do amanho da terra ou do pastoreio do gado, ou ainda àquele conjunto de trabalhador braçal que está  localizado na construção civil, nos portos  e  em outras atividades da área. Nada disso. Trabalhador, também, é o juiz que julga, o professor que educa, o político que legisla,  entre outras tantas e importantes categorias que produzem bens e serviços. 

Foi esse conjunto da nossa população produtiva que foi às ruas em manifestações cívicas e pacíficas pedindo providências nas áreas econômicas, sociais e reformas importantes. Ninguém intimidou o chefe do governo e da nação. Os clamores das ruas são justos e precisam de providências urgentes. Incorreu em erro evidente o seu ministro de Estado ao afiançar que a presidente que sofreu os horrores da ditadura não se intimidaria com algumas manifestações por ocasião do seu pronunciamento.

Concordo plenamente com o ministro. O pronunciamento teria que ocorrer porque esses movimentos são pacíficos e representam a vontade da população em inaugurar um novo tipo de relacionamento com o chefe do governo nacional, ao pedir mudanças na forma de governar para reger melhor o império das necessidades sociais. É também  um indicativo que o governo não está fazendo corretamente  a sua parte. 

O povo não é bobo. Ele  conhece mais do que ninguém  a tempestade financeira que  está lhe custando no bolso.  A dona de casa, com absoluta certeza, é o melhor filamento de mercúrio a dar o tom de um momento,  angustiante e triste, quando vai aos mercados realizar suas compras domésticas.

A política econômica está destruindo as políticas cambial, monetária e fiscal, sem falar nos juros que estão nas alturas, o crédito que praticamente resulta impossível o seu  acesso, e  o desemprego, em progressão geométrica, que  encontra no processo inflacionário  o seu  irmão gêmeo  mais ingrato e implacável.

Mesmo nesse quadro nebuloso, a presidente, que sempre falou  que os governos dos estados federados  precisam ouvir as vozes das ruas, cujas súplicas estão direcionadas para as transformações impostas pelas exigências contemporâneas, data vênia,  não guardou, com o seu silêncio, uma sintonia razoável entre o discurso e a prática. 

É nesses momentos de crise que a classe trabalhadora espera de seu governante uma palavra de conforto e de esperança para superar os desafios do presente. Espera muito mais. Espera que o governo aponte políticas públicas sérias e honestas  que acabem com a desorganização da economia e das  improvisações  no varejo,  especialmente aquelas relacionadas  com as políticas regionais, que só despertam ainda mais intrigas, insultos e provocações entre os  governadores  e nada de útil produz .

Nesse tópico - e por qualquer ângulo que se queira enfocar a questão- a presidente falhou. O governo não tem dono. Ele pertence ao povo. A história da humanidade está repleta das ações de líderes mundiais que souberam com  inteligência e altivez, sensibilidade e espírito público,  animar os seus governados a vencerem com bravura, altivez e patriotismo os momentos dramáticos que protagonizaram. 

Apenas  para apontar os mais recentes, temos Mahtama Ghandi, que surpreendeu o mundo de então ao arrebatar da Grã Bretanha a independência política do seu país; Wiston  Churchill, que sempre esteve na linha de frente dos ingleses  na resistência heróica  aos dramáticos bombardeios da aviação nazista; Charles de Gaulle que, mesmo no exílio, mostrou a força da sua autoridade,  animando a resistência francesa a expulsar de seu território os invasores nazistas. E o que falar então do presidente americano  Rooseveltt que animou os americanos a suplantar  o episódio da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, de 1929,  oferecendo o New Deal, um projeto de reconstrução econômica do mundo.

O erro da presidente não tem mais  conserto. Já é uma página virada da nossa história que ficou um pouco mais cinzenta. Mas as oportunidades se renovam todos os dias no curso da nossa existência. Precisamos     apenas estar atentos e  preparados  para não errarmos novamente quando o mesmo fato tiver que ser protagonizado de novo. 

É o que esperamos da nossa presidente. Ela ainda tem mais três oportunidades, se tudo correr bem.

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