Por mais que os servidores estejam no direito de reivindicar aumentos, precisamos ponderar que outros direitos - que neste caso referem-se à maioria dos campo-grandenses - também estão em jogo.
O movimento grevista dos médicos da rede pública de saúde de Campo Grande representa ameaça inaceitável para a população. Em média, duas mil pessoas ficam sem atendimento por dia e as consultas agendadas há meses ainda não têm prazo para serem remarcadas. Por mais que os servidores estejam no direito de reivindicar aumentos, precisamos ponderar que outros direitos - que neste caso referem-se à maioria dos campo-grandenses - também estão em jogo. Já está comprovado que manter os 30% dos profissionais nas unidades de saúde não está sendo suficiente para garantir o mínimo de condições para atendimento, se até antes da paralisação o descaso já era frequente.
Na edição de hoje, o Correio do Estado mostra relatos de pacientes que enfrentaram horas de angústia e alguns até foram embora sem passar pelo médico porque não toleraram mais a espera. Infelizmente, a população mais carente acaba ficado vulnerável por não ter condições de buscar os consultórios ou clínicas particulares, onde os médicos estão sempre dispostos a atender e cobrar valores que não estão dentro da realidade da maioria dos trabalhadores.
Os números mostrados pela gestão municipal evidenciam que a situação dos médicos está muito distante do difícil quadro apresentado pelo sindicato da categoria. Os ganhos chegam a R$ 43 mil mensais.
A greve ocorre em momento bastante delicado por contar com diversos agravantes. Só neste ano, já foram notificados 19,1 mil casos de dengue em todo Estado. São quase 4 mil pacientes apenas em Campo Grande. As mudanças climáticas neste período também contribuem para a busca por socorro. Ao menos o acordo formalizado com a Santa Casa acaba por aliviar o caos na rede pública. Entretanto, no que concerne às unidades de saúde, não há qualquer sinalização de que a administração municipal terá condições de arcar com os reajustes solicitados e nem voltar a pagar as gratificações cortadas recentemente. A crise financeira obrigou a Capital ao contigenciamento de R$ 301 milhões, incluindo os cortes dos gastos com pessoal, indispensáveis para que o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal não extrapolasse ainda mais.
Os ajustes financeiros em Campo Grande impõem sacrifícios aos trabalhadores e refletem o que acompanhamos no cenário nacional. Na noite de quarta-feira e ontem, os deputados federais aprovaram os primeiros itens do pacote de ajuste fiscal da gestão da presidente Dilma Rousseff. Foi a saída para corrigir os equívocos econômicos de sua própria herança e, ao menos, tentar amenizar o colapso financeiro do Brasil, que impacta em desemprego, aumentos aos contribuintes e investimento zero. Assim, as regras de acesso ao seguro-desemprego tornaram-se mais rígidas.
Neste momento, diante das falhas da gestão petista, prefeitos e governadores precisam apelar a medidas polêmicas, impopulares e que desagradam a população para não extrapolarem as contas. O governador Reinaldo Azambuja (PSDB), por exemplo, declarou que não terá como pagar reajuste até porque os servidores já tiveram acréscimos nos salários em dezembro. O mesmo ocorre na Capital. Neste caso, é preciso compreensão e o entendimento de que os direitos da maioria precisam ser priorizados, especialmente quando nos referimos ao setor da saúde. Por isso, a greve precisa ter limites e o cenário atual não pode mais ser tolerado.