A articulação do setor rural para evitar o crescimento do número de furto de gado no Estado, evidencia um privilégio que a maioria da população, infelizmente, não pode contar.
O aumento de roubos e furtos de gado em Mato Grosso do Sul está preocupando produtores rurais. Em menos de um mês, foram quatro furtos que juntos, somam 1,2 mil cabeças de gado levadas por criminosos. A criação de grupo específico da Polícia Civil para investigação desses casos - abigeato - mostra a articulação do setor rural para evitar o crescimento do número de casos no Estado, mas também evidencia um privilégio que a maioria da população, infelizmente, não pode contar.
Os casos de furto e roubo de gado sempre ocorrem no Estado, mas a onda recente assustou os produtores, pela articulação dos bandidos e pelo número de bovinos subtraídos. No dia 27 de abril, em Bandeirantes, os criminosos usaram coletes da polícia e, munidos de “mandado de busca e apreensão”, embarcaram 145 cabeças de gado. Os criminosos chegaram a remarcar as reses, que seriam vendidas para frigorífico. O crime foi descoberto e os envolvidos presos. O prejuízo evitado seria de R$ 300 mil. Só na região do Pantanal, em Corumbá, em duas ações, foram 834 animais roubados ou furtados. Em um dos casos, a quadrilha receberia R$ 1 milhão pela venda de 570 bovinos. Na maior parte das ocorrências, a polícia esclareceu os casos, com prisão dos envolvidos.
O Sindicato Rural em Mato Grosso do Sul credita o aumento dessas ocorrências por conta do preço da carne. Nos primeiros três meses do ano, o valor, em média, ficou 17,6% mais caro só na Capital. O percentual é mais que o dobro da inflação acumulada no período, que foi de 8,08%, segundo Índice de Preços ao Consumidor. A valorização estimulou os criminosos. O presidente da entidade, Oscar Stuhrl, também avalia que as propriedades rurais são vulneráveis às invasões.
A Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) agiu rápido e articulou com a Polícia Civil a criação de um grupo especial para investigar estes crimes. Uma sala será montada, dentro do Parque de Exposições, e uma equipe do Serviço de Investigações Gerais será deslocada para atender especificamente os casos. A entidade também cederá móveis e infraestrutura de transporte para resgate dos animais. Mérito dos produtores, que usaram do poder do setor agropecuário no Estado para garantir maior segurança à classe. Porém, é acordo questionável, por privilegiar uma parcela da população, em detrimento a outros contribuintes, que também pagam impostos e reivindicam maior segurança nas ruas. A “ajuda de custo” evidencia, também, a incapacidade do governo de oferecer melhor policiamento.
Por causa da insegurança, nas cidades, a população tenta se proteger. Quem pode, instala cercas elétricas e câmeras para evitar a entrada de ladrões. Um investimento que os produtores também devem recorrer, independentemente do aparato policial que está sendo montado. A polícia alerta, também, para a facilidade com que os ladrões conseguem converter gado furtado em rebanho legalizado, já que não há mecanismos que comprovem a posse do gado. Na Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, é permitida a emissão de nota de estoque virtual; o declarante diz que tem certo número de cabeças de gado, mas não há fiscalização que comprove. O estoque pode tornar-se realidade com a inclusão, física, de animais roubados de outras propriedades. A fragilidade do sistema de Segurança Pública e de vistoria dos animais é convite aos criminosos.