Artigos e Opinião

OPINIÃO

Gilberto Robalinho: "Estupidez"

Procurador de Justiça

Redação

20/05/2015 - 00h00

Essa é a palavra que melhor exprime a iniciativa de inúmeros jovens que, recentemente, durante a madrugada, resolveram realizar uma “festa” às margens da rodovia MS-430, no município de São Gabriel do Oeste, dando azo a um trágico acidente automobilístico. 

Matéria publicada no Correio do Estado, edição de 16 de março de 2015, noticiou que “Um grupo formado por cerca de 100 pessoas realizava um luau...”  nas proximidades da rodovia estadual e “...alguns dos participantes estavam no meio da pista...”, oportunidade em que “seis pessoas morreram atropeladas por uma caminhonete...”.  

Conforme noticiado, as “...festas às margens da rodovia MS-430 costumam ser regadas a álcool e a trilha, tocada por aparelhos de som automotivo. Elas aconteciam desde que a estrada foi  inaugurada, em dezembro do ano passado”. 

A atitude insensata dos jovens resultou no falecimento precoce de alguns, lesões graves em outros, gastos para o Estado e, sem sombra de dúvidas, sofrimento e transtorno psicológico ao condutor e proprietário do automotor, um pecuarista de 59 anos de idade, arrimo de família, preso pela polícia judiciária, sem falar em eventual responsabilização criminal. 

Esse fato reforça a tese de que vivemos numa sociedade geradora de violências, num estado de desamparo e de falta de perspectivas dos jovens.

A globalização, a rapidez das transformações tecnológicas, éticas, morais e culturais estão gerando uma sociedade carente de pai e mãe, agravada pelo enfraquecimento do conceito de família.  
Esse fenômeno acomete, principalmente, os adolescentes, os adultos jovens, ávidos de novas experiências, de desejos, no afã de transgredir, de buscar fortes emoções e viver fantasias, desafios, sensações diferentes, num período da vida de elevada vulnerabilidade emocional.

Como sabemos, nas transformações da adolescência, os jovens buscam novos modelos a serem incorporados para a formação de sua identidade adulta. É um período muito vulnerável e suscetível a influências ambientais, construtivas e destrutivas. Muitos jovens liberam sua impulsividade e se envolvem em acidentes, em abuso de drogas, no trânsito, nas farras, terminando muitas vezes em suicídio e assassinato. 

O jovem de hoje vive uma grande defasagem entre o início da adolescência e as habilidades intelectuais, afetivas e sociais mínimas e necessárias, a serem por eles desenvolvidas para que possam integrar a comunidade adulta com autonomia, maturidade e independência. Alguns vivem os ritos de desafio, coragem e transgressão pichando paredes e monumentos ou através de brigas entre gangues rivais. O encontro de trabalho anda difícil, juntamente com a ociosidade e a desesperança, constituem fatores que baixam a autoestima, geram violência ou indiferença, com a elevação da incidência de atos inconsequentes.

Em artigo publicado na internet, intitulado “Ociosidade em jovem é resultado da falta de comprometimento e responsabilidade”, Tany Souza pondera: “Para a psicóloga Débora Cristina de Macedo Jorge, essa falta de comprometimento é consequência de algumas atitudes dos pais. ‘Pela falta de tempo para estar presente, os pais acabam deixando tudo pronto para o filho e, por causa disso, os jovens não criam comprometimento com nada. É a chamada lei de compensação: dou tudo para meus filhos para compensar minha ausência’”.

E tudo isso vira um ciclo vicioso, com consequências graves para ele e para a sociedade. ‘O jovem não tem nada para fazer em casa, vai para a rua se aventurar no crime, vai a várias festas, bebe em excesso, tem amizades erradas e, muitas vezes, provoca grandes acidentes e mortes, como vemos todos os dias pela televisão’, explica Débora.

Para ela, o caminho para acabar com essa ociosidade é a mudança de atitude dos pais. ‘Eles devem mostrar a importância do estudo, colocar disciplina, limites, responsabilidade, mas têm que ser o exemplo de tudo isso. Além de apresentar outras coisas que chamem a atenção, que sejam boas e agradáveis para o jovem”.

Acidente automobilístico ocorrido este mês  ilustra a imprudência de alguns jovens. Segundo consta, cinco pessoas foram à cidade de Rio Negro e, ao retornarem de uma festa, o condutor perdeu o controle do veículo e capotou, ceifando a vida de dois jovens. Segundo a matéria, “No boletim de ocorrência, os policiais relataram ter encontrado dentro do carro um isopor térmico contendo garrafas de cerveja”.

Lamentavelmente, o adolescente de nossos dias vive sua rebeldia como membro atuante e transformador da sociedade, porém, altamente influenciável pela força dos meios formadores de opinião, na qual uma pequena minoria poderosa controla grandes massas.  Os pais e educadores devem estabelecer os limites dos jovens. Devem, ainda, agir como mediadores a respeito de informações que os adolescentes recebem, por exemplo, pela mídia, mostrando quais são suas opiniões e seus valores em relação a determinados assuntos. 

Os jovens devem ter mais limites impostos pelos pais e pela sociedade, o que, certamente, geraria mais maturidade aos adolescentes e adultos jovens, protegendo-os de perigos que podem levar à morte, a exemplo dos acidentes que vitimaram Ana Paula, Camila, Manoel, Dinei, Cleberson, Suzana, Joana D’Arc e Giovani, frutos de estupidez.

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