O envolvimento de políticos ligados às igrejas evangélica e católica, no caso de pedofilia e no do prefeito municipal, pastor da Assembleia de Deus Nova Aliança, no da agiotagem, maculam a cena política campo-grandense e impõem refletir sobre o nosso comportamento nas eleições. É fato que as escolhas são feitas após o filtro dos partidos políticos, responsáveis pelo registro das candidaturas e pela apresentação dos candidatos ao eleitorado, bem como pela decisão de coligar-se ou não a outros partidos. Logo, o voto sofre o condicionamento da decisão emanada das lideranças partidárias e, portanto, não se pode simplificar a equação, jogando toda a responsabilidade nas costas “do povo, que não sabe votar”.
Nas eleições de 2012, a despeito do desequilíbrio de forças, no segundo turno, David venceu Golias. Mas, o prefeito legitimamente eleito sofreu cassação em decorrência dos arranjos da hegemonia que há décadas conduz os destinos do município, a qual foi derrotada pela população e, por meio de um golpe, entronizou, na prefeitura, o vice. De trajetória política instável, ele passou por diversos partidos, foi vereador por conta de uma suplência, fazendo de sua igreja o grande cacife com o qual postulou os cargos eletivos.
Dada a questionável legitimidade com que tem exercido o cargo, já que ocupa a chefia do Executivo subordinado ao comando da Câmara Municipal, sua gestão se marca, como também a anterior, pela inoperância, incapacidade gerencial, o que, todavia, não impediu o escorchante aumento do IPTU e, contraditoriamente, isenções dirigidas de ISSQN.
Essa conjuntura política adversa traz importantes lições, e talvez uma das principais seja a necessidade de se vigiar os vendilhões de templo. No momento, há uma quantidade surpreendente de pessoas que buscam se vincular a igrejas para darem corpo a suas pretensões políticas. Por sua estrutura e organização centrada na benção e na prosperidade em troca de sacrifícios, algumas denominações evangélicas de matriz neo-pentecostal, que se expandem graças ao competente uso das mídias eletrônicas, têm se mostrado muito eficientes a esses propósitos. Elas não detêm a exclusividade da prática, também presente em outras religiões; entretanto, são as mais agressivas no uso dessa estratégia.
Assim, é fundamental que o eleitor esteja atento para não misturar as questões de crença, fé e religiosidade com a política. A identidade religiosa do candidato, seara de foro íntimo, é elemento secundário de seu perfil e não deve interferir em seu mandato ou na condução da coisa pública, porque essa coisa é de todos, irmãos de fé ou não. Importa são a sua biografia política, suas propostas e seus projetos, o grupo ao qual está vinculado, os interesses que representa; em síntese, os elementos objetivos de sua atuação pública, a serem avaliados criteriosamente pelo eleitor.
Desde tempos imemoriais, a confusão entre política e religião, dando margem a esse tipo de oportunismo, esteve presente. Jesus, segundo a Bíblia, já denunciava os fariseus, os vendilhões do templo, que longe de se preocuparem com as questões do espírito e da alma, buscavam as benesses e vantagens terrenas para si, usando a igreja como pretexto. No século XVI, Lutero denunciava a venda de indulgência pelo Vaticano, empreendendo a Reforma Protestante. (Mateus 6:5, 23, 25).
Assim, muito cuidado para não nos iludirmos com esses falsos profetas (Mateus 7:15,20) que se abrigam em uma sigla partidária para ampliarem sua influência, seu poder e sua riqueza, falando em nome de Deus, mas agindo só em benefício próprio.