Artigos e Opinião

ARTIGO

Sérgio Maidana: "Homicídio à cultura"

Advogado

Redação

31/05/2015 - 00h00

Eis que, na terça-feira passada (19 de maio), recebo, sobressaltado, a notícia de que estavam pintando em látex a parte externa da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Miranda. A igreja construída em cimento italiano (usual na Europa), importado pelos pioneiros nos anos 1920 para a cidade pantaneira, com beleza externa que salta aos olhos semelhante à pedra, cujo material é lavável, estava sendo descaracterizada com a pintura em látex. 

No grupo “Amigos de Miranda” formado na rede social Facebook, com mais de 4 mil seguidores, o debate começou acalorado com o Cido do Zero Hora “botando a boca no trombone” e indo ao Ministério Público – que infelizmente foi moroso demais e até o momento nenhuma providência tomou. O empresário, radicado na cidade há muitos anos, achou um absurdo o ato de descaracterização da igreja e, dali, surgiu o movimento de indignados, que acabou no descobrimento de que a igreja está em processo de tombamento desde 1998.

Assim que obtivemos a confirmação de que a igreja construída em 1931 estava em processo de tombamento ao patrimônio histórico e cultural, junto de Maura Freire Siufi (ex-secretária de Cultura do município) e Marta Freire Audi (proprietária da Gazeta do Pantanal), requeremos providências da Secretaria de Cultura diretamente com o secretário Athayde Nery, que imediatamente determinou diligência,  notificando o responsável pela paróquia do embargo à obra em modificar a igreja.

No entanto, o estrago na parte interna da igreja quase secular e de grande valor cultural ao patrimônio histórico do Brasil  já havia sido feito. Ao autorizar a reforma, o pároco, sem qualquer noção de preservação ao patrimônio histórico da cidade, determinou a retirada do piso, pintura sobre pedra-sabão e retirada de peças de madeiras que compunham o projeto arquitetônico dentro da igreja, desfigurando-a.

O estrago foi incomensurável, o que nos leva a refletir o quanto nosso povo não tem noção da história e da conservação do patrimônio histórico, um verdadeiro homicídio à cultura. Assim, nos deparamos quase todos os dias com estes assassinatos ao nosso patrimônio histórico e a inércia e incompetência das autoridades, que nada fazem e têm deixado ruir e vir abaixo os prédios históricos de Aquidauana, Anastácio, Miranda e Nioaque, só restando o conforto de que em Corumbá (cidade mais nova do que as outras) ainda existe uma força popular que está conservando os casarões antigos com restaurações.

Em 2005, em artigo aqui no Correio do Estado, clamei as autoridades para que voltassem os olhos para conservar o nosso patrimônio histórico, mas infelizmente quem esteve à frente do poder eram pessoas sem cultura, desapegadas a nossa histórica e ignorantes com as nossas tradições. 

Espero que o episódio de Miranda sirva como ponto de partida para uma nova era e aguardamos que o governador Reinaldo Azambuja, um homem sensível a nossa história e nossas tradições, direcione uma política informativa e propaganda para conscientização da  população quanto à conservação do nosso patrimônio histórico e cultural. 
Pelo meu lado, continuo na luta, fazendo o que está ao meu alcance, mesmo com a decepção de que até os novos párocos que chegam ao nosso Estado não têm noção alguma de respeito a nossa cultura e nossas tradições. Lamentável.

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