Recentemente os veículos de comunicação estão abordando o tema da produtividade do trabalhador brasileiro, todavia alguns estão apresentando uma visão muito simplificada desta questão.
Esta polêmica se acirrou na última semana, com a divulgação de dados do relatório do Conference Board, que é uma associação independente de pesquisa com ênfase nos negócios e avalia a produtividade em diversos países. Esta publicação revela que a produtividade total dos fatores caiu no Brasil 2,3% em 2014 e que a produtividade da mão de obra no país é um quarto da dos Estados Unidos. Contudo, estes resultados negativos seriam culpa exclusivamente do baixo empenho do trabalhador? Um olhar mais profundo demonstra que não.
Apesar de uma parcela de pesquisadores acreditar que os aspectos culturais do brasileiro atrapalham o desempenho e a produtividade no trabalho, esta questão engloba diversos outros elementos, como perda de dinamismo do setor industrial brasileiro, baixo investimento em tecnologia e inovação, poucos anos de escolarização, baixa qualidade da educação e ainda problemas estruturais como de infraestrutura, excesso de burocracia e pouca competição empresarial.
O setor industrial é importantíssimo na produtividade da economia, um dos principais estudiosos da questão industrial foi o economista Nicholas Kaldor (1908-1986), seus estudos apontam que a indústria é fundamental para o desenvolvimento econômico, pois, entre outras coisas, quanto maior for o crescimento industrial, maior será crescimento do Produto Interno Bruto (PIB); e quanto maior for o crescimento da produtividade da indústria de transformação, maior a produtividade industrial e, por conseguinte, da economia em geral. Por isso, ter um setor industrial pujante é importante para melhorar a produtividade, entretanto o que vem ocorrendo no Brasil é o oposto. De acordo com dados divulgados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Brasil voltou para patamares da década de 1950 em termos de participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) e de 2004 até 2012 ocorreu uma perda total de 30,8%. Desse modo, a produtividade da economia sente os reflexos desta perda de dinamismo.
Outro importante elemento, diz respeito a inovação e tecnologia, um trabalhador com equipamentos mais eficientes certamente será mais produtivo se comparado com um trabalhador com equipamentos ultrapassados. Um indicador importante para mensurar a inovação é o número de registros de patente e o Brasil geralmente fica atrás de países como China, Índia e Rússia. Um exemplo positivo nesse sentido é a Correia do Sul, que conta com sistema avançados de acesso à internet facilitando o desempenho de diversos trabalhadores no país.
Também um fator fundamental para a melhora da produtividade é a educação de qualidade e, neste ponto, o Brasil deve avançar muito se quiser melhorar seus indicadores. Alguns estudos apontam que o brasileiro estuda em média em torno de sete anos, enquanto nos EUA este valor é de aproximadamente 12 anos. Além disso, existem os elementos de qualidade e nos exames internacionais o Brasil muitas vezes desaponta. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) em 2012, apesar de uma melhora, o Brasil ficou atrás de países latino-americanos como o Chile, México, Uruguai e Costa Rica.
Por fim, a burocracia, falta de infraestrutura adequada e baixa competição na economia brasileira, também impactam nesta baixa produtividade. Várias empresas acabam sendo obrigadas a alocar uma parte de seus mais competentes colaboradores para cuidar de questões ficais como impostos e demais burocracias, retirando pessoas qualificadas de suas áreas-fins. Quanto à infraestrutura, uma melhor eficiência na área energética, logística e tecnológica, como internet mais veloz, certamente impactariam positivamente na produtividade. Também, uma maior concorrência entre as empresas levaria a melhora na produtividade.
Portanto, a produtividade no Brasil deve se elevar substancialmente para que possamos crescer de modo sustentado, com aumento de poder real de compra, através de elevação de salários e baixa inflação. Assim, devemos avançar nos aspectos de concorrência, tecnologia, educação, burocracia, industrialização e infraestrutura e não colocar a culpa exclusivamente numa pseudocultura de trabalhadores preguiçosos.