É preciso mais responsabilidade antes de anunciar prazos ou lançar investimentos, para que os moradores não acabem iludidos com ideias que não passam de falsas promessas
Algumas promessas repetem-se com tanta frequência, que se torna cada vez mais difícil acreditar na possibilidade de concretizá-las. Os anos passam, mudam-se os políticos, mas os discursos se repetem. É o que acontece de forma recorrente em relação às obras e aos prazos estipulados para concluí-las. Ontem, a atual equipe da administração municipal voltou a “resgatar” a ideia do Reviva Centro, projeto lançado há três anos, que ainda não saiu do papel. As únicas modificações foram executadas pelos próprios comerciantes, que alteraram as fachadas dos estabelecimentos e continuam ao aguardo das melhorias prometidas pelo poder público.
Até agora, parece utópico demais tentar estipular datas, quando nem ao menos os primeiros passos foram dados. A prefeitura ainda precisa conseguir empréstimo de R$ 175 milhões (US$ 56 milhões) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o que exige autorização do governo federal, além do crivo do Legislativo municipal e do Senado, avaliando a capacidade de endividamento da Capital. Depois de todo esse trâmite e, ainda, das burocracias relacionadas à licitação, a obra poderá começar. Por isso, fica difícil acreditar que o projeto pode sair do papel ainda neste ano.
A proposta de revitalização do Centro é apenas uma das muitas que ilustram a dificuldade para cumprir os cronogramas. Basta um período de reflexão para lembrarmos de alguns outros empreendimentos que ficaram só na agenda e nem chegaram a avançar. Todos os anos, pelo menos três vezes, ouvimos anúncios de que o Hospital do Trauma será retomado, mas nada acontece. O mesmo abandono ocorre em relação ao Centro de Belas Artes, na região do Cabreúva, cujas obras foram interrompidas e permanecem sem sinal de quando serão reiniciadas. Há ainda uma lista de obras incompletas e suspensas, por diversos motivos: postos de saúde, Centros de Educação Infantil (Ceinfs) e recapeamento de ruas. Outras emblemáticas, com datas de entrega constantemente alteradas, a exemplo do Aquário do Pantanal, que já consumiu verba bem acima do estipulado inicialmente e deve ficar pronto apenas no fim do ano, muito depois do estimado.
Recursos são gastos na elaboração de projetos que, pouco tempo depois, precisam ser corrigidos ou quase totalmente refeitos, em decorrência da demora para se iniciarem as obras. Em outros casos, os prédios inacabados ficam desgastados pelo tempo, sem que a população jamais desfrutasse do montante já investido. Assim, dinheiro público é desperdiçado por pura falta de organização. É preciso mais responsabilidade antes de anunciar prazos ou lançar investimentos, para que os moradores não acabem iludidos com ideias que não passam de falsas promessas. Também é indispensável contar com equipe experiente para ultrapassar os trâmites burocráticos e garantir mais investimentos, algo que ainda deixa a desejar, principalmente quando analisamos os certames que deixaram de ser lançados ou aqueles que precisaram ser corrigidos pela administração da Capital.
Muitos anúncios de novas obras ou dos prazos para concluí-las acabam inseridos no universo mítico em que, indiretamente, aparece o discurso político. Fatos reais e imaginários parecem confundir-se quando buscamos uma cronologia acerca das promessas e dos investimentos que são concretizados. Diminuir a lacuna entre os discursos e a realidade ajudará a recuperar a credibilidade dos políticos, para que os investimentos anunciados não continuem a soar apenas como novas lendas.