Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial deste domingo: ''À mercê do desleixo''

Editorial deste domingo:<br> ''À mercê do desleixo''

Redação

07/06/2015 - 00h00

Os terminais transformaram-se em “espaços sem lei”, onde o vandalismo domina, há brigas constantes, e ninguém assume a responsabilidade

Tente imaginar a situação de frequentar determinado estabelecimento sem as mínimas condições de infraestrutura, com falta de higiene e instalações que ameaçam a sua segurança. Sem dúvida, o “cliente” optaria por outro local, que contasse com as mínimas condições para garantir seu conforto na hora de adquirir certo produto. Diariamente, porém, cerca de 210 mil pessoas precisam se sujeitar ao desleixo, porque dependem dos terminais de transporte coletivo urbano. E, pior, pagam caro por um serviço que deixa muito a desejar, tendo em vista que a tarifa em Campo Grande é uma das mais altas do País.  Esse abandono é motivo constante de reclamação dos passageiros, mas vistoria do Corpo de Bombeiros revela algo ainda mais grave:  os terminais são uma “bomba-relógio” e teriam de ser, inclusive, interditados, porque não atendem às normas básicas de segurança. Em caso de incêndio, não há sequer extintores ou sinalização das rotas de fuga, como mostra reportagem publicada na edição de ontem do Correio do Estado.

Os terminais transformaram-se em “espaços sem lei”, onde o vandalismo domina, há brigas constantes, e ninguém assume a responsabilidade. Indigna saber que não há qualquer melhoria, mesmo com os reajustes nos preços da passagem. Teoricamente, as empresas que integram o Consórcio Guaicurus e venceram licitação para explorar o serviço pelo período de 20 anos deveriam tratar melhor seus “clientes” e oferecer estrutura de qualidade àqueles que utilizam diariamente o transporte coletivo. Entretanto, essa atribuição não está prevista em contrato, grave falha do certame aberto em 2012. A manutenção, à época, era feita por uma empresa particular, mas a contratação não foi renovada durante a gestão de Alcides Bernal, que teve o mandato cassado. Desde então, repetem-se as promessas de que os terminais serão recuperados. Nada acontece, e resta aos usuários encarar, dia após dia, a sujeira e a insegurança para poder se deslocar de casa ao trabalho.

No começo do ano, a Ouvidoria da Prefeitura de Campo Grande iniciou trabalho para percorrer os terminais e identificar quais as principais queixas e reivindicações dos passageiros. Como se houvesse a necessidade de levantamento para constatar aquilo que já está evidente. Neste mesmo espaço do editorial, alertamos que a iniciativa poderia acabar como engodo para convencer a plateia da boa vontade dos gestores. Passados cinco meses, constata-se que, de fato, foi apenas mais uma ilusão, pois os problemas continuam os mesmos e sem perspectivas de mudança.

A inércia continua. A tarifa foi reajustada ano passado, para R$ 3, e a tendência é que, em 2015, suba novamente. Os passageiros, porém, não recebem as contrapartidas prometidas. A qualidade da frota deixa muito a desejar, mas as empresas não são cobradas pela prefeitura, que, por sua vez, também se isenta da responsabilidade sobre os terminais. Enquanto, isso os “clientes” insatisfeitos não têm a quem recorrer e nem podem optar por outras alternativas, como faria qualquer outro consumidor que adquire certo produto ou serviço particular. Os passageiros precisam se submeter aos riscos e descasos diários, pagando caro por isso.   

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