Alguns dias atrás um polêmico artigo publicado neste jornal criticava asperamente o sufrágio universal, manifestando espanto e horror com a possibilidade, cito literalmente, “que um número gigantesco de eleitores analfabetos e de menores de idade – pessoas que não têm capacidade mental para discernir o que é bom e ou que é ruim para si” tivesse direito ao voto. Infelizmente a tese proposta no artigo, que acreditávamos derrotada pela história, está de volta, retomando pressupostos sobre a natureza humana emprestados de uma corrente de pensamento chamada “elitista” que operou, ao longo dos últimos séculos, para combater o lema democrático “uma cabeça um voto”, apresentando uma vasta literatura política, filosófica, sociológica e até psicológica que justificava a restrição do voto aos ricos e instruídos.
Julgava-se, e ainda julga-se, irracional garantir os direitos políticos aos pobres e aos menos instruídos, equiparados pelos representantes desta corrente como “instrumentos vocais”, “instrumento bípedes sem liberdade, sem moral, sem faculdade intelectual”, “máquina de trabalho”, “músculos sem cérebro”, “indivíduos depravado moralmente”, “rebanho”, .etc
Em oposição às teses elitistas, a democracia defendia e a ideia que camponeses, artesões e humildes trabalhadores possam decidir sobre as questões públicas, em pé de igualdade com os ricos. No “Protágoras”, escrito pelo filosofo Platão quase 2500 anos atrás, lembra-se que “os atenienses escutarão os técnicos quando for discutida a construção adequada de muros ou navios, mas escutarão qualquer um quando se tratar de questões de política (...). A razão deve ser que eles não consideram que este seja um assunto que possa ser ensinado”.
Na conclusão Protágoras afirma, os atenienses “agem sabiamente ao aceitar o conselho de um ferreiro ou de um sapateiro em questões políticas”. Foi a luta destes homens e mulheres anônimos, obscuros, de humilde profissão que possibilitou a progressiva ampliação do direito de voto até a conquista, ao longo do século XX, do sufrágio universal, entendido como mecanismo de reforma política para substituir o poder da minoria rica com a “regra da maioria”.
Tanto no entendimento de seus defensores quanto dos seus detratores, a conquista do voto universal representou uma vitória dos pobres e oprimidos contra os interesses das elites, mas é bom lembrar, que a democracia não pode ser limitada ao culto fetichista do sufrágio universal, sendo uma banalização injustificada identificar o regime democrático com o sufrágio universal. O voto é condicio sine qua non, mas não é suficiente, sem a implementação de espaços de participação popular no processo de tomada de decisões e mecanismos de controle sobre o operado dos representantes políticos.