Recentemente, escrevemos algumas reflexões sobre a lógica da política administrativo-partidária, cuja conclusão foi a falta de lógica ou incoerência, sobretudo para o leigo no tema, ou seja, para a sociedade em geral. “Mutatis mutandis” (mudando o que tem de ser mudado), a mesma linha de raciocínio pode ser traçada sobre o futebol.
De fato, a política administrativa praticada no mundo do futebol, não só no Brasil, como no mundo todo - a Fifa que o diga -, deixa pairar dúvida sobre a lógica metodológica utilizada na condução da política desse esporte que encanta, se não a todos, a grande maioria da população, independentemente do sexo, da idade, da vocação religiosa, da cor da pele, etc.
Não é novidade para ninguém que, em termos de faturamento, o mundo do futebol arrecada milhões e milhões de dólares. O Brasil, em especial seus principais times, guardando as devidas proporções, especialmente da Europa, faz parte desse contexto. A diferença é o endividamento dos clubes brasileiros causado, sobretudo, pelo desequilíbrio entre receitas e despesas.
Não há dúvida de que, por de trás da empresa do futebol, há outros interesses, muitas vezes escusos, envolvendo alto montante de dólares, euros etc. Foi exatamente o que se levantou com as investigações levadas a feito pelas autoridades americanas e suíças, envolvendo dirigentes da Fifa e empresários do mundo esportivo, inclusive os brasileiros José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e J. Hawilla, proprietário da Traffic, com a possibilidade de se chegar a outros dirigentes e ex-dirigentes do futebol e de outros esportes aqui do nosso país tupiniquim. E isso tem tirado o sono de muita gente! Até aí, a lógica é clara.
O propósito do ganho por meio da falcatrua é evidente. O que comprova, com efeito, dois aspectos importantes: de um lado, que o sistema capitalista, conquanto suas vantagens para a sociedade, também tem seu viés negativo; de outro, que o maior problema está no próprio homem, no seu DNA.
Pois bem, e o futebol brasileiro como fica nessa “foto”? O quadro que todos conhecem não é bom, para não dizer péssimo. A notícia veiculada pela imprensa sobre o desequilíbrio entre receita e despesa dos clubes é recorrente. Aliás, vem em plena ascensão, consoante estudos feitos por Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva, publicados na internet. A causa principal desse contexto só pode ser a má gestão, o amadorismo e, quem sabe, até mesmo, associada à falcatrua, pois, ao que parece, sobretudo pelas revelações das investigações acima, essa prática se tornou recorrente no mundo dos negócios esportivos.
Cremos que não precisa ser economista ou especialista no mundo dos negócios para identificar que os altos salários que se paga (ou se promete pagar) a determinados jogadores e técnicos são as principais causas desse contexto. O endividamento dos clubes vai se acumulando não só com os jogadores como também com os bancos, com a receita federal, FGTS, previdência etc. A bola de neve só tem a crescer.
Por mais que a receita do futebol, em especial dos tidos como grandes, tenha aumentado nos últimos anos aqui no Brasil, o mundo do futebol vive em um mundo irreal. Apenas como exemplo, o jogador Leandro Damião, que custou R$ 42 milhões ao Santos, com um salário de R$ 650 mil por mês, ao longo de um ano, em 44 jogos, fez 11 gols.
O que levaria qualquer empresa de outro ramo à falência. Ainda para exemplificar, o jogador holandês Seedorf custou R$ 18 milhões aos cofres do Botafogo, por 17 meses de contrato. Isso representou 11,7% do que o clube faturou em 2013; o peruano Guerreiro acaba de ir para o Flamengo, pelo valor de R$ 12 milhões de luvas, com salário de R$ 600 mil; Robinho, até dezembro de 2014, recebia do Santos em torno de R$ 1 milhão por mês, o que provavelmente seja igual ou próximo da folha de pagamento do time do Chapecoense, para quem o Santos perdeu recentemente. Tite, técnico do Corinthians, tem salário superior a R$ 400 mil.
Como dito acima, são apenas alguns exemplos que espelham com muita clareza a irrealidade em que se encontra o futebol brasileiro. Ou seja, a sua falta de lógica ou incoerência no mundo negocial e que muita decepção, associada a pouquíssimas alegrias, tem trazido aos apaixonados torcedores brasileiros.
Aliás, até mesmo o encontro “entre amigos” na sabatina de Marco Pólo, presidente da CBF, na Câmara dos Deputados, nesta última terça-feira, revela muito bem a falta de lógica no nosso futebol.
Com efeito, levando-se em consideração a nossa realidade - ao menos, na concepção do leigo - está na hora de se estabelecer um teto máximo de salário tanto para jogadores como para técnicos e profissionalizar a gestão do futebol.