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opinião

Periperes Rodrigues do Prado: "Escravidão e discriminação"

Advogado pós-graduado e bacharel em ciências filosóficas

Redação

21/06/2015 - 00h00

A vida é o bem mais precioso do ser humano; mas a vida sem liberdade não tem qualquer significado; nem dignidade. 

Ao falarmos em escravidão, é difícil não pensar nos comerciantes portugueses, espanhóis e ingleses que superlotavam os porões de seus navios de negros africanos, colocando-os à venda de forma desumana e cruel, por toda a região da América. Sobre esse tema, é difícil não nos lembrarmos dos capitães do mato que perseguiam os negros que haviam fugido no Brasil, dos Palmares, da Guerra de Secessão dos Estados Unidos, da dedicação e das ideias defendidas pelos abolicionistas, e de muitos outros fatos ligados a este assunto; apesar de todas estas citações, a escravidão é bem mais antiga do que o tráfico do povo africano. Ela vem desde os primórdios de nossa história, quando os povos vencidos em batalhas eram escravizados por seus conquistadores. 

Podemos citar como exemplo os hebreus, que foram vendidos como escravos desde o começo da história. Muitas civilizações usaram e dependeram do trabalho escravo para a execução de tarefas mais pesadas e rudimentares. Grécia e Roma foram algumas delas, que detinham um grande número de escravos; contudo, muitos de seus escravos eram bem tratados e tiveram a chance de comprar sua liberdade.

No Brasil, a escravidão teve início com a produção de açúcar, na primeira metade do século XVI. Os portugueses traziam os negros africanos de suas colônias na África, para utilizá-los como mão de obra escrava nos engenhos de açúcar do Nordeste. Os comerciantes de escravos portugueses vendiam os africanos como se fossem mercadorias. Os escravos mais saudáveis chegavam a valer o dobro daqueles mais fracos ou velhos; o transporte era feito da África para o Brasil nos porões de navios negreiros. Amontoados, em condições desumanas, muitos morriam antes de chegar ao Brasil, e seus corpos eram lançados ao mar. Nas fazendas de açúcar ou minas de ouro, os escravos eram tratados da pior forma possível. Trabalhavam muito, de sol a sol, recebendo apenas trapos de roupa e uma alimentação de péssima qualidade. Passavam as noites nas senzalas, galpões escuros, úmidos e com pouca higiene, acorrentados para evitar fugas. Eram constantemente castigados fisicamente, e o açoite era a punição mais comum no Brasil colônia. Eram proibidos de praticar sua religião, de origem africana, ou de realizar suas festas e seus rituais africanos. Tinham que seguir a religião católica, imposta pelos senhores de engenho, adotar a língua portuguesa na comunicação. Mesmo com todas as imposições e restrições, não deixaram a cultura africana se apagar. Escondidos, realizavam seus rituais, praticavam suas festas, mantiveram suas representações artísticas e até desenvolveram uma forma de luta: a capoeira. 

As mulheres negras sofreram muito com a escravidão, embora os senhores de engenho utilizassem esta mão de obra, principalmente, para trabalhos domésticos. Cozinheiras, arrumadeiras e até mesmo amas de leite foram comuns, naqueles tempos de colônia. No século do ouro, XVIII, alguns escravos conseguiam comprar sua liberdade após adquirirem a carta de alforria. Juntando alguns “trocados” durante toda a vida, conseguiam tornar-se livres. Porém, as poucas oportunidades e o preconceito acabavam fechando as portas para estas pessoas. O negro também reagiu à escravidão, buscando uma vida digna. Foram comuns as revoltas nas fazendas em que grupos de escravos fugiam, formando, nas florestas, os famosos quilombos. Estas eram comunidades bem organizadas, em que os integrantes viviam em liberdade, por meio de uma organização comunitária aos moldes do que existia na África. Nos quilombos, podiam praticar a cultura e exercer seus rituais religiosos. O mais famoso foi o quilombo de Palmares, comandado por Zumbi. A partir do século XIX, a escravidão no Brasil passou a ser contestada pela Inglaterra. Interessada em ampliar seu mercado consumidor no Brasil e no mundo, o parlamento inglês aprovou a Lei Bill Aberdeen, que proibia o tráfego de escravos, dando o poder aos ingleses de abordarem e aprisionarem navios de países que utilizavam esta prática. Em 1850, o Brasil cedeu às pressões inglesas e aprovou a Lei Eusébio de Queiroz, que acabou com o tráfico negreiro. Em 28 de setembro de 1871, era aprovada a Lei do Ventre Livre, que dava liberdade aos filhos de escravos nascidos a partir daquela data. E, no ano de 1885, era promulgada a Lei dos Sexagenários, que garantia liberdade aos escravos com mais de 60 anos de idade. Somente no final do século XIX é que a escravidão foi mundialmente proibida. Aqui, no Brasil, a Abolição se deu em 13 de maio de 1888.

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