Não há setor econômico que não esteja sofrendo os efeitos da crise. A ordem é apertar o cinto e conter gastos, readequações necessárias para não extrapolar o orçamento.
O transporte terrestre é a principal via de escoamento da produção no Brasil. Por isso, é crescente a preocupação com os rumos da economia no País, quando os números em Mato Grosso do Sul evidenciam cenário preocupante do setor.
Os empresários deveriam estar colhendo frutos com o fim do período de escoamento da safra de soja, encerrada no início deste mês. Porém, não é o que acontece: o anúncio da ociosidade de 16% da frota total de 60 mil veículos no Estado e a demissão de 20 mil trabalhadores do setor, somente este ano, evidencia a crise que se encaminha para caótico quadro de recessão.
O efeito dominó estende-se e afeta postos de combustíveis, despachantes e venda de caminhões. O último, aliás, fez com que muitos que apostaram no setor de transporte entrassem na já extensa lista de inadimplentes. O canto da sereia começou em 2009, com o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com financiamento de 100% do valor do caminhão e cobrança de juros de 7% ao ano, a serem pagos em período de oito anos. A frota brasileira cresceu vertiginosamente.
Entre o fim de 2002 e o de 2014, passou de 1,54 milhão de unidades para 2,58 milhões. No meio do caminho, o Brasil foi engolido pela crise e a facilidade tornou-se pesadelo: sem trabalho e sem dinheiro muitos não conseguiram honrar as parcelas e viram os veículos serem recolhidos por decisão judicial. Este é exemplo de que a política econômica do Governo Federal tem sido equivocada há anos e, agora, o que vemos são as consequências nefastas do caminho escolhido pela gestão.
Mesmo assim, a oferta ainda é grande. A franca concorrência e o desaquecimento da economia provoca corrida desenfreada para garantir participação no mercado. Isso derrubou o preço do frete, prejudicando o setor, que ainda tem que arcar com o aumento dos custos, decorrentes da manutenção e combustíveis. Junte-se a isso as sofríveis condições das estradas, o que prejudica sensivelmente o escoamento da safra, por exemplo.
Segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), em razão das condições dos pavimentos no transporte rodoviário de soja e milho, R$ 3,8 milhões são perdidos, em média, anualmente. Na avaliação da coordenadora de Economia da CNT, Priscila Santiago, em entrevista ao Correio do Estado, no íncio deste mês, “é dinheiro que não vai para ninguém, é simplesmente jogado fora”.
É este sentimento que acompanha o pensamento do cidadão brasileiro. Estamos jogando fora tempo e dinheiro, vendo o capital perder valor e a deterioração do patrimônio, tudo em decorrência de medidas políticas de cunho popularesco que se mostram, agora, equivocadas. Não há setor econômico que não esteja sofrendo os efeitos da crise.
A ordem é apertar o cinto e conter gastos, readequações necessárias para não extrapolar o orçamento. São ações pragmáticas, que estão sendo tomadas pela população e pelas administrações públicas em todo o País. É preciso agir com cautela pois até o Governo Federal admitiu que o cenário tende a piorar, ao anunciar a previsão de redução do Produto Interno Bruto (PIB). A projeção é que 2015 termine com retração de 1,1% da economia e com inflação de 9%. O setor de transportes, infelizmente, será mais um dos que ainda vão engrossar a lista de vítimas da recessão.