Estava eu postado frente a uma loja do centro da Capital, aguardando uma pessoa com quem havia combinado me encontrar ali, a fim de escolher um determinado equipamento eletrônico. Já estava ficando impaciente, pois a tal pessoa se encontrava um tanto atrasada, quando minha atenção foi despertada para um ajuntamento do outro lado da rua, com vozes alteradas e gritos.
De repente, duas mulheres, aparentando uns trinta/quarenta anos de idade, se atracaram em luta corporal, bastante violenta, com sopapos, puxões de cabelos e mordidas. Ao invés de alguém intervir para interromper a briga, o que se viu foi intenso açulamento, com gritaria e vaias. Fiquei observando do lado de cá, mantendo cautelosa distância, pois não sabia o que poderia sair dali, nem desejava interferir no rebu.
Não dava para ver direito, pois um círculo se formou em torno das duas, mas era possível perceber que a coisa ia ficando feia. De repente, uma viatura policial chegou com suas sirenes estridentes e freou cantando pneus junto ao bafafá: dela saltaram três militares, dois homens e uma mulher, e o público abriu passagem para os agentes da lei, que foram logo agarrando as duas e separando-as. Sob protestos e esperneando muito, foram elas algemadas e empurradas para dentro do camburão, que saiu rapidamente no maior estardalhaço.
Então atravessei a rua e me aproximei da aglomeração, que ainda não se dispersara, a fim de tentar descobrir a causa do entrevero. Perguntando a um e outro, soube que a briga fora motivada por ciúmes de um homem, companheiro de uma delas, mas que mantinha relacionamento com a outra, e que, por sinal, trabalhava próximo dali, mas preferiu ficar afastado da confusão.
Naquele fatídico momento ambas se encontraram e, iniciada uma discussão com ofensas pesadas de lado a lado, as vias de fato foram consequência.
Voltei para o lugar de antes e verifiquei que meu amigo ainda não havia chegado. Continuei na espera e, enquanto isso, passei a meditar sobre o tragicômico acontecimento que acabara de presenciar.
O que teria levado o tal homem a trair a companheira? Seria por mera atração física, ou estaria amando a outra? Será que essa outra seria uma pessoa de posses e ele estaria se aproveitando? Será que se decepcionara com a convivente, que não mais estaria correspondendo ao que dela esperava quando a ela se uniu? Na confusão e a alguma distância, não fora possível avaliar a aparência física das duas mulheres, se eram bonitas e atraentes ou não, uma delas mais que a outra, etc.
Pensando bem, a verdade é que o ser humano, com as exceções de praxe, se revela por natureza infiel, com um dom inato para trair. Uns e outros, em algum momento da vida, são tentados à traição, ou até mesmo buscam-na para satisfazer essa vontade às vezes incontrolável. Trai-se o cônjuge, o(a) companheiro(a), o sócio nos negócios, o aliado político, etc. Sobre essa última modalidade, dizia Tancredo Neves que, na hora do voto, “na cabine indevassável, dá uma vontade louca de trair”.