O embuste envolveu ainda a população, que, por muito tempo, acreditou vivenciar o boom econômico, com aumento do poder de consumo. Ledo engano
O país gastou mais do que podia e pediu empréstimos volumosos para financiar as despesas, ficando refém da crescente dívida. Neste período, os gastos públicos aumentaram e a arrecadação não acompanhou o ritmo. O descompasso resultou em débito, que supera até o limite do Produto Interno Bruto (PIB). A origem dessa crise nasceu há dez anos, quando o governo maquiou as contas ao longo do ano para entrar em seleto grupo de países desenvolvidos.
Parece, mas não é o Brasil. Este é o cenário da Grécia, que ganha os noticiários internacionais em decorrência da dívida que chega a 271 bilhões de euros, o equivalente a R$ 961 bilhões na cotação atual. Porém, as semelhanças não são poucas e mostram que as decisões administrativas do governo petista foram equivocadas e tomaram rumo que terá efeitos catastróficos por longo prazo. A maquiagem tupiniquim atende pelo nome de pedalada fiscal, prática do Tesouro Nacional de atrasar, propositalmente, o repasse de dinheiro a bancos – públicos e privados – e autarquias, como o INSS. O objetivo era melhorar artificialmente as contas federais. Ao deixar de fazer essas transferências, o governo federal apresentava despesas menores do que eram na prática, enganando o mercado financeiro e especialistas em contas públicas.
O embuste envolveu ainda a população, que, por muito tempo, acreditou vivenciar o boom econômico, com aumento do poder de consumo e inserção na classe média. Ledo engano. Compras com parcelamentos a perder de vista começaram a fazer parte da vida de muita gente. Os efeitos da pedalada fiscal apareceram e a despesa real do governo federal subiu, afetando o resultado do superavit e da meta do PIB. A crise ficou difícil de esconder.
Os resultados não tardaram a aparecer, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em que o número de famílias endividadas foi de 21,3%. Em 2014, este índice era de 19,8%. O porcentual dos que vão permanecer com débitos chegou a 7,9%, ante 6,6% em igual período do ano passado. O atual patamar é o pior já registrado desde 2011.
Aqui em Campo Grande, é possível também mensurar o quanto a crise está afetando o bolso do consumidor. A V Semana de Conciliação terminou na terça-feira e, do total de R$ 144 milhões, durante período que durou de 29 de junho a 7 de julho, foram renegociados R$ 566,956 mil, o equivalente a 0,5% do total da dívida. Era a oportunidade de o inadimplente tentar abater o montante devido, fazer parcelamentos e se livrar da conta. Porém, sem condições de arcar com esta despesa, não teve jeito a não ser manter o débito e, para muitos, com nome inscrito no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Guardadas as devidas proporções e especificidades do caso, não é muito diferente do que aconteceu na Grécia, no início do mês, quando os gregos foram às urnas e rejeitaram as medidas de austeridade impostas pelos credores em troca de ajuda financeira. Lá, a expectativa é aumentar o poder de barganha e negociar empréstimos em condições mais favoráveis. Aqui no Brasil, é difícil antever solução, já que ainda estamos percorrendo longo e árduo caminho da recessão econômica.