Esqueceu-se o FMI, que o “Cavalo de Troia” foi uma idealização dos gregos e, portanto, eles não admitiriam serem subjugados aos credores internacionais, às chantagens financeiras e ao terror das comunicações manipuladas. No momento, eles estão alegres, pois vinham negociando há muito tempo com seus credores, até que o governo, numa decisão magistral, anunciou a convocação de um plebiscito com o objetivo de deixar a população decidir e logicamente assumir a responsabilidade sobre as condições impostas pelo euro-grupo, para liberar a verba de 7 bilhões de euros de ajuda financeira, que seria usada para honrar a dívida com as instituições financeiras internacionais.
Lembra a estória do cidadão que não conseguia dormir porque devia o aluguel vencido do mês. Sua companheira, preocupada, foi ter com o dono do imóvel, que morava no andar acima. O marido, meio que desconfiado, perguntou aonde ela teria ido aquela hora. Ela, com grande desprendimento, disse que tinha ido resolver o problema e que havia contado ao proprietário que eles não iriam pagar o aluguel naquele mês porque seu marido não tinha o dinheiro. Questionando sua atitude, complementou dizendo que isso não era solução, porque ele havia sido demitido. Ela concordou concluindo que ele agora poderia dormir em paz, porque a partir desse momento o dono é quem não iria dormir.
Os credores nesse momento não estão dormindo, mas rezando ao pé da cama pela saúde da Grécia, caso contrário, ela sairá dessa “zona” que é o euro. Imaginem a Grécia como alpinista, amarrada na mesma corda que sustenta a Romênia, Bulgária, Sérvia Macedônia, Albânia, Hungria, Eslováquia e todos os países circunvizinhos, remediados financeiramente, despencando no vazio. Milhões de pessoas têm seus depósitos em bancos gregos. Caos.
Esse oxi (agudo, penetrante) significa que os gregos disseram um não às tais medidas de austeridade impostas por credores internacionais, como estiveram fazendo aqui nos chamados países em desenvolvimento, onde a receita é única e garantidora dos créditos capitalistas em detrimento do bem-estar dos povos, a saber: corte de gastos, congelamento de salários dos aposentados e servidores, aumento de impostos, das receitas e taxas, redução da moeda, diminuição do crédito, eliminação de subsídios, terceirização, redução da ação do governo no mercado, todas medidas que perpetuam o endividamento dos países.
A Grécia, que não é besta, vai tentar um novo acordo e obter ajuda financeira e entrou para história como o primeiro país dito desenvolvido a não reembolsar “grana” para o Fundo Monetário Internacional (FMI) dentro do prazo previsto, coisa que assustava os banqueiros, industriais e empresários nas eleições brasileiras de 2003.
Em 2010, o governo grego aceitou cumprir as reformas e os ajustes fiscais, o que implicaria em cortes de gastos do governo e arrocho salarial, em troca de um empréstimo dos Bancos Europeus para salvar as contas impagáveis como as do inquilino. Além de fugir dos compromissos, ela aproveitou a oportunidade para cobrar da Alemanha uma dívida de reparação indenizatória dos prejuízos causados pelos saques arqueológicos e a apropriação de fundos bancários, confiscos públicos e privados, durante a 2ª Grande Guerra, dando o recado que “nós estamos nos devendo, isto é, uns aos outros”.
Nas entrelinhas, fora a determinação do povo em dizer que está cansado de austeridade e sacrifícios impostos por terceiros, está uma Grécia geopolítica e estrategicamente necessária ao equilíbrio da organização militar da Otan, garantindo a segurança militar do continente europeu e exercendo influências nas decisões geopolíticas da região, eliminando a hipótese de invasões pelo Mediterrâneo.
Tanto a Grécia como a Europa, assim como os Estados Unidos sabem das necessidades, importâncias e expectativas mútuas e, por isso mesmo, sempre houve apoio financeiro americano à indústria grega, a pressão para que a Europa não só os aceitasse como integrantes da União Europeia, antes mesmo de Portugal e Espanha, mas que encontre agora uma solução negociada que evite os mesmos acontecimentos que levaram Cuba a procurar ajuda com os russos, após Fidel ter sido desprezado pelos EEUU, e com uma diferença: a região é de interesse geopolítico e econômico da China. É nesse contexto que desejamos coisas boas e força ao oxi grego com uma palavra de força: axé Grécia!