Passear por regiões agrícolas faz pensar na semente que se transforma em alimento para manter a vida. A terra, a chuva, o sol e tantos componentes desconhecidos cuidam daquela semente com mãos invisíveis, para que ela gere o fruto.
Os que entendem do plantio têm, muitas vezes, a sabedoria de prever o tamanho do fruto por meio do cheiro e da cor do solo. O alimento não é só uma cápsula de saúde e vida, mas um conjunto de memórias afetivas, a mistura de cores e perfumes, o frescor no verão ou a força no inverno. Ele pode alterar o humor, a composição do sangue, e influencia toda uma rede bem encadeada que nos mantém vivos.
Uma amiga, feliz em estar de volta ao seu país, falou certa vez: “Há um pedacinho de você que se alimenta de coisas que você não vê. São os cheiros, os tipos de árvores, a cor do sol, que só existem daquele jeito no lugar onde você nasceu ou passou sua infância”.
Também acontece assim com a alimentação. Nada tem o mesmo gosto daquela comidinha do lugar onde nascemos. Basta fazer uma viagem longa para sentir falta de algum ingrediente. “O corpo terreno está ligado àquela parte da Terra onde nasceu! Intimamente ligado também com todas as estrelas dessa bem determinada parte e com todas as irradiações que a ela pertencem”, defende Abdruschin, em “Na Luz da Verdade”. Além dessas facetas, a escolha que fazemos dos ingredientes que colocamos no prato implica na formação do país e do universo que escolhemos para viver.
Sonia Hirsch conta no livro “Paixão Emagrece, Amor Engorda”, que por 10 anos foi vegetariana. Não tinha vontade de comer carne ao saber que um boi come por 60 famílias e um filé de 240 g é produzido às custas de grãos que poderiam alimentar 40 pessoas.
A carne é apenas um exemplo de alimento envolto em uma rede de grandes impactos. Construímos um universo com o ato de comer e, no entanto, só temos notícias das consequências.
Não nos sentimos responsáveis pelas causas. Mal sabemos que somos parte desta realidade, porque ignoramos os processos pelos quais passam os alimentos que chegam ao nosso prato.
A ignorância, porém, não exclui a responsabilidade. Dentro do universo das opções que fazemos, “podemos ser alimentados ou envenenados com o que recebemos em nós: os livros que lemos, as pessoas às quais nos ligamos, a religião que seguimos ou a comida que ingerimos”, diz Thomas Moore, no livro “A Emoção de Viver a Cada Dia”.
A terra fértil, as florestas e a própria vida perguntam: com que comida estamos alimentando nosso corpo e nossa alma?
*Jornalista, pós-graduada em Jornalismo Literário, colaboradora do blog www.literaturadograal.blogspot.com.br