Logo após o referendo de 05 de julho último, em que 61% dos gregos disseram ‘não’ à proposta de austeridade do Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI, contra 38% dos que disseram ‘sim’, o então ministro das Finanças, Yanis Varoufakis – ao pedir demissão do cargo e para facilitar as negociações do primeiro-ministro Alexis Tsipras com os credores gregos – foi autor de frase lapidar: “Quem é de esquerda não pode se apegar a cargos”. E completou: “Nós da esquerda sabemos como atuar coletivamente, sem interesse pelos privilégios do poder. Apoiarei firme e integralmente o primeiro-ministro Tsipras, o novo ministro das Finanças e o nosso governo”.
Vista sob o prisma da Grécia atual – uma “ilha de esquerda” cercada de ‘tubarões de direita’ por todos os lados – a frase de Varoufakis soa como anúncio de novos tempos naquele país–berço da cultura mundial, que no momento enfrenta problemas econômicos muito semelhantes aos que afetam países latino-americanos e aqueles emergentes que compõem os BRICS. Daí a suposta necessidade daquele país de fazer o ajuste fiscal preconizado pelo FMI e demais órgãos controladores da economia mundial.
Mas a frase de Varoufakis vai além disso. Ela é indicativa de um tipo de comportamento que deveria ser adotado por todos aqueles que almejam governar município, estado ou nação de forma democrática, quer se trate de país de tamanho minúsculo como a Grécia ou de extensão territorial gigante como o Brasil, ou mesmo se trate de governo de direita ou de esquerda: honestidade e desapego ao cargo público em qualquer circunstância.
No entanto, o que se vê no Brasil de hoje está longe de atender aos pré-requisitos contidos na fala do ex-ministro de finanças grego. Na operação “Lava Jato”, por exemplo, que envolveu a maior empresa brasileira – a Petrobras –, com prejuízos avaliados em 6,2 bilhões de reais só com corrupção, houve participação de políticos, servidores da União, empreiteiras, partidos políticos, e o beneplácito de paraísos fiscais como a Suíça. Neste caso, tanto a ética como a decência e respeito ao dinheiro público foram “esquecidos”. Mas ninguém pediu pra sair de seus respectivos cargos. Foram defenestrados.
Da mesma forma, episódios como o da recém-descoberta operação “Lama Asfáltica” da Polícia Federal, aqui em Campo Grande, MS, que envolveu movimentação financeira em torno de R$ 600 milhões nos últimos cinco anos, políticos e empreiteiras locais estão envolvidos e a honestidade também foi deixada de lado. Mas se não houvesse a atuação direta da PF, dificilmente os personagens envolvidos no esquema seriam descobertos e, quem sabe, punidos.
Diante disso, é preciso criar mecanismos para que os governantes possam detectar falcatruas que sejam feitas pelos seus comandados antes que elas cheguem ao conhecimento público. Mas para que isso ocorra é fundamental que tanto o legislativo (Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas) – além dos tribunais de contas (onde estão eles!)–acompanhem em tempo real e fiscalizem as empreiteiras que utilizam verbas públicas há algum tempo.
Enfim, embora a frase dita por Varoufakis se refira à situação particular da Grécia, onde os credores batem a porta à procura de dinheiro a fim de encher os cofres dos países ricos, a frase dita por ele deve ser usada como lema para todos aqueles que têm intenção de trabalhar em governos municipais, estaduais, ou mesmo federal, quer seja no Brasil ou em outras partes do mundo: honestidade e desapego aos cargos públicos. Para dizer o mínimo.