Se alguns dos 11 pedidos de impeachment a que Cunha deu seguimento evoluírem, Dilma Rousseff tem grande chance de não resistir à abertura do processo que poderá tirá-la do poder
O desengavetamento de 11 pedidos de impeachment protocolados na Câmara dos Deputados contra a presidente Dilma Rousseff pelo presidente da casa, Eduardo Cunha, na última sexta-feira, agravará ainda mais a crise institucional instalada no Brasil nas próximas semanas.
Cunha não esconde que tirou os pedidos de impeachment da gaveta em retaliação às denúncias que surgiram contra ele na Operação Lava Jato. Em um dos pedidos, do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), o presidente da Câmara abriu prazo de 10 dias para o deputado do Rio de Janeiro “emendar a denúncia” que formulou contra a presidente da República no último mês de março. Bolsonaro responsabiliza Dilma pelos desvios na Petrobras investigados na mesma operação em que Cunha passou a ser apontado como suspeito de envolvimento.
O presidente da Câmara dos Deputados culpa o governo pelo que chama de ação orquestrada da Procuradoria-Geral da República para que o lobista Júlio Camargo dissesse que deu US$ 5 milhões em propina para ele. O lobista investigado na operação, e que virou delator recentemente, negava, até então, ter passado suborno a Eduardo Cunha.
As denúncias contra Cunha embaralharam algumas cartas no jogo político que estava sendo jogado. O PMDB, partido do presidente da Câmara, do vice-presidente da República, Michel Temer, e do presidente do Senado, Renan Calheiros, ao menos formalmente, continua aliado ao governo de Dilma Rousseff.
O problema para a cúpula petista no Palácio do Planalto, no entanto, é que o PMDB, principal aliado, também é o partido que levanta mais desconfiança. É o fiel da balança do Congresso Nacional. Basta lembrar que Cunha elegeu-se presidente da Câmara em fevereiro justamente com o apoio da ala oposicionista do partido e das outras legendas que não escondem ser da oposição, como PSDB, DEM e PPS.
A tensão no primeiro escalão do governo federal é grande. Se alguns dos 11 pedidos de impeachment a que Cunha deu seguimento na Câmara evoluírem, Dilma Rousseff tem grande chance de não resistir à abertura do processo que poderá tirá-la do poder. Nos bastidores, o deputado Eduardo Cunha diz contar com o apoio de pelo menos metade dos colegas de parlamento.
Do outro lado, os aliados diretos de Dilma Rousseff apostam na perda de credibilidade do presidente da Câmara na condução de um processo de impeachment, justamente por causa de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção e pagamento de propina, alvo da Operação Lava Jato da Polícia Federal.
Para os próximos lances do jogo político, o governo federal tem cada vez menos estratégias. Cunha também tem poucas opções, mas a que ele dispõe no momento é devastadora. Ele pode até cair, mas tem grande chance de levar o mandato de Dilma com ele.