Artigos e Opinião

OPINIÃO

Pedro Pedrossian Neto: ''Nuvens incertas"

Economista. Professor. Mestre em Economia Política pela USP-SP

Redação

21/07/2015 - 00h00

As águas do Oceano Pacífico, profundas e misteriosas, controlam à distância o humor das chuvas que derramam sobre o Mato Grosso do Sul. Quando se aquecem ou se resfriam, sujeitas ao El Niño ou a La Niña, promovem dilúvios ou estiagens que obrigam o agricultor a olhar aos céus temendo castigo. Nesta zona de transição entre o clima tropical e subtropical em que o Estado se encontra, os arroubos temperamentais do clima limitam a expansão da fronteira agrícola.

O céu sempre ditou o que se faz na terra. Não é por outro motivo que, dos 35,7 milhões de hectares que formam o território do Estado, apenas 3,5 milhões sejam destinados à agricultura, enquanto 20 milhões são pastagens para a pecuária bovina. A ocupação e o uso do solo dependem do regime pluviométrico: enquanto no Mato Grosso, por exemplo, a agricultura prospera naturalmente – já que a chuva cai no momento e na quantidade corretas –, em grande parte do Estado o risco climático é considerável, segurando o crescimento da renda e da produção dos municípios do interior.

Diante deste quadro, uma das formas para se assegurar a expansão da agricultura em MS é apostar no aumento da irrigação nas lavouras. Como uma “Mesopotâmia”, cercado pelos rios Paraná e Paraguai, o Estado dispõe de 15 bacias hidrográficas, mas pouco destes recursos hídricos são aproveitados. Segundo dados da Embrapa, a irrigação por pivô central atinge apenas 25 mil hectares em MS contra 366 mil em Minas Gerais, 210 mil em Goiás, 192 mil na Bahia, 168 mil em São Paulo e 67 mil em Mato Grosso. Aproveitamos, em resumo, apenas 0,07% do território do Estado para este tipo de irrigação – uma vergonha em termos de política pública.

Vários fatores concorrem para que tenhamos este resultado. O primeiro deles, certamente, é a ausência um plano diretor para a irrigação que dê foco nas bacias hidrográficas mais promissoras e a falta de leis de incentivo que confiram caráter estratégico ao setor. Estas, por sua vez, precisam enfrentar de vez o debate e reduzir as agruras dos processos de licenciamento ambiental: burocráticos, dispendiosos, restritivos ao extremo e, sobretudo, lentos, proporcionam (com o perdão da ironia) “rios de dinheiro” as consultorias especializadas, sem necessariamente proteger melhor o meio ambiente.

O segundo aspecto é a desoneração dos tributos incidentes sobre os equipamentos de irrigação e na energia elétrica. Enquanto a indústria paga 0% de ICMS sobre a aquisição de bens de capital e em muitos de seus insumos em MS, a agricultura de alta produtividade não tem o mesmo tratamento. A vantagem desta medida é que ela teria um impacto fiscal quase nulo, já que a irrigação é incipiente no Estado. Por fim, é necessário um arcabouço legal que permita ao governo estadual subsidiar a construção da infraestrutura das redes e das subestações de distribuição de energia até os projetos de irrigação.

As forças da natureza, intempestivas, muitas vezes fornecem ao homem obstáculos e dificuldades no curso de seu desenvolvimento. Sua fúria, no entanto, sempre pode ser transmutada em generosidade quando se aposta no trabalho e na tecnologia, independente da incerteza das nuvens ou do céu que nos protege. A irrigação é a agenda futura da agricultura de MS, que precisa reorientar suas políticas públicas de incentivo. As águas oceânicas, que de longe nos vigiam, podem ser domadas em nosso favor.

Artigo

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações

03/11/2026 07h35

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Continue Lendo...

Editorial

Segurança pública exige inteligência

O crime organizado não respeita limites estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento não pode ficar limitado a iniciativas isoladas

03/11/2026 07h25

Segurança pública exige inteligência

Segurança pública exige inteligência

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).