Ele era vendedor-viajante e percorria todo o Estado em um veículo “Rural Willys” da empresa, com tração nas quatro rodas e pneus especiais, único meio de romper os lamaçais ou areões típicos das estradas de terra batida que era obrigado a percorrer para atingir os mais afastados grotões do interior.
Uma vez por mês visitava seus clientes tradicionais, que o recebiam efusivamente, dada sua grande simpatia. Tinha espírito aventureiro e gostava de desbravar novos caminhos.
Também gostava muito do seu trabalho. Atuava no ramo de produtos farmacêuticos populares, cosméticos e de higiene corporal. Levava no veículo unidades de amostra dos produtos que vendia e alguma quantidade para venda em pequenos estabelecimentos fora das rotas de entrega normal.
Era ótimo vendedor e frequentemente recebia prêmios e bonificações por produtividade. Periodicamente era convocado para realizar reciclagem e treinamento sobre novos produtos na sede da empresa em São Paulo. Ganhava muito bem, pois, além do salário fixo, percebia comissões sobre as vendas realizadas. Com isso já construíra uma boa casa para morar com a família.
Era casado e tinha dois filhos; ressentia-se dos longos períodos em que ficava ausente do lar. Sua mulher era muito compreensiva e não se queixava, pois sabia que o trabalho dele era fundamental para a criação e educação dos filhos. Ela era farmacêutica e professora concursada numa universidade, com um bom salário.
Seguia ele com sua rotina de trabalho, mês após mês. Em certa ocasião, à noite, numa estrada secundária perto da fronteira com o Paraguai, foi barrado por bandidos disfarçados de policiais, que se apossaram do veículo e de todas as mercadorias que transportava, bem como dos valores que estavam em seu poder. Foi deixado amarrado em uma árvore próxima da estrada. Por sorte, algumas horas depois, ao ouvir ruído de automóvel, começou a gritar e foi socorrido. Contou o que ocorrera e pediu que o levassem à delegacia mais próxima para registrar a ocorrência, e que testemunhassem acerca de como foi encontrado.
Feito isso, comunicou à empresa o acontecido, tendo ela lhe enviado meios para retornar à casa e adotado as demais providências que o caso requeria. O carro, certamente levado para o país vizinho, nunca mais foi localizado.
Recuperado do trauma e retornando às atividades, passou a evitar viagens noturnas e estradas com histórico de assaltos. Seu entusiasmo já não era o mesmo e sentia alguma desmotivação. Também seu casamento de muitos anos já não ia bem e entrara em desgastante rotina. Quando os filhos concluíram o ensino superior, sua mulher recebeu uma carta que ele postara em Ponta Porã, avisando-a de que havia deixado o trabalho de vendedor, que o casamento estava desfeito e ele não voltaria mais para casa.
Não disse para onde iria. A mulher, depois de muito investigar, descobriu que ele mantinha, havia muito tempo, outra família em Pedro Juan Caballero, onde se estabeleceu como comerciante de produtos importados.