Artigos e Opinião

OPINIÃO

Ruben Figueiró: "Bioceância, Santos-Iquique"

Ex-senador da República

Redação

25/07/2015 - 00h00

Os efeitos publicitários da recente visita do presidente da República Popular da China ao nosso país, cujas intenções foram reiteradas no final de junho pelo Primeiro Ministro Chinês, também visitando-nos, resultou em uma série de acordos bilaterais, alguns deles apenas com o toque de intenções, levantaram um clima saudável para as relações diplomáticas entre duas nações amigas – circunstância alvissareira. 

Um desses acordos de intenções está no interesse pela construção da ferrovia que partindo do território brasileiro demandasse ao Peru até atingir um de seus portos marítimos na costa do Oceano Pacífico. Seria rota bioceânica ferroviária Atlântico - Pacífico. A obra teria seu custo financeiro bancado majoritariamente pela China.

Dias após o histórico ato entre dois presidentes, o governo brasileiro esclareceu que um grupo de técnicos representantes dos dois países estudaria detalhes sobre a viabilidade fática face as particulares topográficas da região da preconizada ferrovia, o que significa que haverá a demanda de tempo para sua efetiva concretização. De qualquer maneira, a notícia preocupou a nós sul-mato-grossenses no receio de que o governo federal desviasse suas vistas ao projeto que nos diz de perto.

Não é dos dias atuais, creio a ideia foi lançada no início da década de quarenta do século passado pelo então presidente Getúlio Vargas em sua célebre “Marcha para o Oeste”, pela implantação de uma rota terrestre (férrea ou rodoviária), interligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Algumas medidas foram efetivadas, tais a construção do ramal ferroviário Campo Grande - Ponta Porã, a construção da ponte sobre o rio Paraguai para permitir que a ferrovia Noroeste do Brasil estendesse seus trilhos até Corumbá. O acordo de Roboré assinado entre o Brasil e a Bolívia no início da década de 50 do século passado para a construção da ferrovia Corumbá – Santa Cruz de la Sierra também foi um passo importante.

Portanto, há mais de oitenta anos, a ideia com ações efetivas está presente nos programas estratégicos do Brasil, como das nações nossas vizinhas, Paraguai, Argentina, Bolívia e mesmo o Peru. Ainda no ano passado – 2014 -quando senador da República, promovi pela Comissão de Infraestrutura do Senado, da qual era membro, uma audiência pública sobre o palpitante tema da ligação bioceânica atlântico – Pacífico, através de rodovia, com a participação de ministros diplomáticos dos países vizinhos, de uma delegação chilena capitaneada pelo prefeito da cidade de Iquique, importantíssimo porto marítimo do Pacífico, além da presença ativa de todos os parlamentares federais de nossa Bancada, debateu-se a imperiosidade de concretização da rota para o desenvolvimento da região cone sul.

Na ocasião, foram reiterados os compromissos diplomáticos, tomando por base a ligação rodoviária de Santos a Porto Murtinho, já existente, e o sinal concreto para assinatura de um acordo para a construção de uma ponte internacional sobre o rio Paraguai ligando Porto Murtinho à localidade de Carmelo Peralta, no Paraguai, na margem direita do caudaloso curso d’agua. Pela obra o Brasil seria o responsável. Ao Paraguai caberia a construção de uma rodovia pavimentada, pelo Chaco, até a fronteira da Argentina ou da Bolívia, daí demandando por rodovias existentes até o Porto de Iquique, Chile, no Oceano Pacífico.

Por manifestação do embaixador representante de nosso Ministério das Relações Exteriores, haveria no início deste ano uma reunião em Santiago do Chile para alicerçar os entendimentos já existentes. Assegurou ainda aquela autoridade que mo mês de outubro seria firmado entre os governos brasileiro e paraguaio um acordo sobre a construção da ponte internacional Porto Murtinho / Carmelo Peralta.

Pela seriedade da Audiência, entusiasmo das partes, guardo confiança que a implantação definitiva da rota bioceânica rodovia Santos – Porto Murtinho - Carmelo Peralta – Iquique com mais da metade do seu trecho concluído será realidade. Outros como o decorrente dos acordos assinados entre o Brasil e a China, também devem serem saudados. É interesse nosso ampliar as rotas de comércio, porém considero uma quimera, tendo em consideração o vulto dos percalços a percorrer, sua efetivação de imediato.

Em resumo, conquistar o imenso e pantagruélico mercado do Oriente vem de Marco Polo, mas também é nosso. Li que nossa Assembleia Legislativa designou uma comissão parlamentar para acompanhar a questão das rotas bioceânicas. Importante decisão. Nossa presença aquecerá a concretização final de um desejo quase secular.

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