As Unidades de Pronto Atendimento são simplesmente o gargalo do sistema e refletem o desleixo com que o atendimento médico ao cidadão foi tratado pelos políticos brasileiros
Infelizmente, não há uma solução em curto prazo para acabar com o caos da saúde pública em Campo Grande, conforme reportagem publicada ontem pelo Correio do Estado, que mostra a dificuldade que os postos de saúde têm de encaminhar os pacientes em estado grave para a rede hospitalar. As Unidades de Pronto Atendimento e os Centros Regionais de Saúde da Capital são simplesmente o gargalo do sistema, e refletem o desleixo com que o atendimento médico ao cidadão foi tratado pelos políticos brasileiros nas últimas décadas. Infelizmente, o jeitinho brasileiro se manifestou da pior forma possível em um setor onde o que está em jogo é a vida do cidadão.
Jeitinho, porque em 15 anos, praticamente não houve aumento de leitos hospitalares em Campo Grande, enquanto a população da cidade cresceu quase 50%. Em 2000 a Capital de Mato Grosso do Sul tinha praticamente as mesmas 1,5 mil vagas em hospitais, e a cidade tinha em torno de 600 mil habitantes. Hoje, o município tem 850 mil pessoas e uma notória e reconhecida falta de leitos para os pacientes de média e alta complexidade.
Em meio à realidade de hospitais lotados, toda a cobrança da população por excelência em atendimento é transferida para o local onde as emergências e urgências são de fato reconhecidas: nas unidades de pronto atendimento e nos centros regionais de saúde. Nestas duas modalidades de postos de urgência e emergência (ao todo são sete na Capital) foram realizados, até a última quarta-feira, dia 29, nada menos que 560.411 atendimentos - mais da metade da população campo-grandense. Os números não levam em consideração as consultas realizadas nas unidades básicas de saúde e de saúde da família.
Também desde o início do ano, as UPAs e CRSs foram o local de falecimento de 132 pessoas. Há casos e casos que explicam estes óbitos, como os atendimentos prestados a pacientes terminais; também há dezenas de situações em que a morte aconteceu nestas unidades de emergência durante a prolongada espera por uma vaga nos hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Campo Grande.
A Secretaria Municipal de Saúde, gestora plena dos recursos do SUS, que atua no setor desde o atendimento preventivo até a regulação de vagas de alta complexidade em hospitais, reconhece o problema das UPAs, e afirma que há muito pouco a se fazer, uma vez que é preferível que o médico fique com o paciente sob observação, praticamente internado, ainda seja em um posto de saúde, do que mandá-lo de volta para casa e ter de se responsabilizar caso o pior aconteça.
Se em curto prazo não há saída para o problema das UPAs e CRSs, no médio e longo prazo existe: aumentar a capacidade dos dois lados que cercam este gargalo. Investindo na medicina preventiva e no acompanhamento domiciliar de pacientes, evitando assim que o quadro deles se agrave e que eles se tornem pacientes frequentes dos postos de saúde, e aumentando a quantidade de leitos de tratamento intensivo na cidade, dando assim, uma resposta mais contundente aos casos mais complexos.