Agora, a salvação do ex-ministro José Dirceu pode estar justamente na lei criada por um integrante de seu partido, a qual poderá complicar ainda mais a administração do PT
O contexto desta nova prisão do fundador e ex-presidente do PT José Dirceu é ainda mais assustador para seus colegas de partido. Em primeiro lugar, porque o ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo de Luiz Inácio Lula da Silva já não é mais réu primário. Reincidente, ele certamente perderá todos os benefícios que a condição primária lhe favorece.
Em segundo lugar, via de regra, um homem de 69 anos de idade, como é o caso de Dirceu, já não tem saúde e disposição suficientes para suportar o peso do cárcere, como ele mesmo teve durante sua juventude, quando foi preso pela primeira vez, combatendo o regime militar.
O cenário da nova prisão de José Dirceu, desta vez na Operação Lava Jato, deixa alguns correligionários do petista de cabelo em pé, porque o ex-ministro poderá, pela primeira vez, pedir a delação premiada e contar o que sabe no esquema de corrupção, pagamento de propina e desvio de dinheiro público envolvendo a Petrobras.
A nova prisão de José Dirceu também atinge em cheio o Partido dos Trabalhadores, sigla com a qual a imagem de Dirceu está diretamente ligada. A reincidência dele reforça, perante a população, a imagem negativa que associa o ex-guerrilheiro, ex-ministro, ex-político, e agora presidiário, com o partido, o crime e práticas reprovadas pela maioria da população.
O Ministério Público Federal não tem dúvida alguma do envolvimento de Dirceu no esquema de apropriação de recursos públicos investigado na Operação Lava Jato. Para a Procuradoria da República, foi quando estava no cargo de chefe da Casa Civil, no governo Lula, que o fundador do PT implantou a cobrança de propina dentro da Petrobras, e continuou se beneficiando da prática, mesmo depois de processado e condenado em outro escândalo, o do Mensalão, pelo qual cumpre prisão domiciliar.
Falando em pagamentos mensais, Dirceu recebia, segundo consta no despacho do juiz Sérgio Moro, nada menos que um “mensalinho” de aproximadamente R$ 96 mil. Os pagamentos irregulares de propina, com recursos desviados da Petrobras, foram feitos entre os anos de 2004 e 2013, por meio da empresa Hope Recursos Humanos à JD Assessoria, empresa de José Dirceu.
As informações sobre o envolvimento de Dirceu nos crimes investigados pela Operação Lava Jato tiveram origem no depoimento do lobista Milton Pascowitch, em um acordo de delação premiada. Tal acordo só foi possível por causa de uma lei de 2013, de iniciativa da presidente da República e correligionária de José Dirceu, Dilma Rousseff.
Agora, a salvação do ex-ministro pode estar justamente na lei criada por um integrante de seu partido, a qual poderá complicar ainda mais a administração do PT. Um efeito bumerangue.
Dirceu ainda não dá pistas se fará ou não um acordo de delação premiada, mas o irmão dele, Luiz Eduardo Oliveira e Silva, também preso ontem na Operação Lava Jato, deu sinais de que poderá ajudar na investigação da Polícia Federal.