Se os parlamentares entrarem em acordo com o prefeito e aceitarem aumentar a base de apoio, será de uma incoerência imensurável, passível até de questionamento da legitimidade do mandato
Desde que retornou à Prefeitura de Campo Grande, Alcides Bernal não deslanchou com a nova gestão. Voltou com o discurso de que queria manter relação amigável com a Câmara de Vereadores, para garantir a governabilidade; porém, não foi o que aconteceu. A deflagração da Operação Coffee Break impossibilitou qualquer tentativa de negociação amigável, afinal, paira no ar a suspeita de negociação de votos para a cassação de Bernal. Antigos aliados se afastaram, reclamando que falta “relação republicana” entre Executivo e Legislativo. Enquanto isso, a cidade está entregue à própria sorte.
Ao voltar à prefeitura, Bernal tinha como objetivo angariar o apoio de vinte parlamentares. Até agora, tem apenas o respaldo de uma minibase, formada por Luiza Ribeiro (PPS), Betinho (PRB), Cazuza (PP) e Eduardo Cury (PTdoB). Na sessão de quarta-feira, dia 14, sofreu a primeira derrota, quando a Câmara derrubou veto do prefeito no Projeto de Lei 7.533/13, que dispõe sobre assinatura de plantas de construção de moradia para pessoas de baixa renda, por engenheiros e arquitetos lotados em Campo Grande. Na ocasião, o prefeito ainda recebeu alfinetada do vereador Alex do PT, ex-líder de Bernal, que criticou o fato de não ter havido discussão sobre o assunto.
A falta de diálogo efetivo continua sendo um dos grandes entraves da gestão, mesmo erro cometido quando assumiu o cargo. Bernal voltou para a prefeitura no fim de agosto e, depois de primeira visita protocolar, não houve mais conversas com os parlamentares. Esta semana, quase dois meses depois, articulou reuniões com vereadores que não fazem parte da base de apoio, na tentativa de ampliar o grupo. Fica difícil acreditar que haverá resultado satisfatório, já que os embates continuam, além das divergências políticas, na esfera judicial. No dia 21, o Tribunal de Justiça do Estado julga recurso em que a Câmara de Vereadores questiona o retorno de Bernal ao cargo. O Ministério Público Estadual (MPE) também recorreu, com o mesmo objetivo. A permanência da atual gestão está na berlinda, causando ainda mais apreensão na população, que só testemunha, a cada dia, o definhamento da cidade. Dois exemplos visíveis são os inúmeros buracos abertos, pelas ruas de Campo Grande, e a terceira paralisação da coleta de lixo.
Se os parlamentares entrarem em acordo com o prefeito e aceitarem aumentar a base de apoio, será de uma incoerência imensurável, passível até de questionamento da legitimidade do mandato. O discurso de independência, seria jogado por terra. A postura até agora adotada, aliás, não inviabiliza a governabilidade; ao contrário, permite transparência nas relações e no andamento dos trabalhos no Legislativo, hoje, lento e afetado por sucessivos escândalos. Abertura de diálogo é possível, justamente para que os projetos em benefício da cidade possam ser desenvolvidos, mas formalizar a mudança de postura e aliar-se a Bernal é discutível, justamente por se tratarem dos mesmos parlamentares que votaram pela cassação e questionam a volta ao Executivo. É preciso manter coerência nas ações no Legislativo, sob o risco de desacreditar ainda mais a Câmara de Vereadores.