Com contingenciamento de gastos, que prejudicam projetos de segurança, e sem o efetivo necessário, é preciso traçar alternativa de fiscalização para tentar coibir o contrabando e o tráfico
A fronteira do Brasil com Paraguai e a Bolívia é um convite às ações dos criminosos. A extensão territorial e o baixo efetivo policial facilitam a entrada de produtos ilícitos, características que tornam Mato Grosso do Sul vulnerável ao tráfico e contrabando. Quando integrantes dos organismos de segurança admitem a precariedade do sistema de fiscalização dá para ter real noção do quando estamos distante de solução para reduzir a criminalidade nas áreas fronteiriças.
Em julho deste ano, o general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, em visita ao Estado, disse que o corte de orçamento iriam comprometer drasticamente a vigilância das fronteiras brasileiras. No Mato Grosso do Sul, especificamente, citou o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, o Sisfron, programa criado em 2008 para reforçar a fiscalização em mais de 16 mil quilômetros. Até o fim do primeiro semestre, o Sisfron havia recebido 37,5% dos R$ 2,2 bilhões previstos para o investimento total. Em entrevista ao Correio do Estado, em Dourados, Vilas Boas calculou que o contingenciamento pode atrasar o cronograma de implantação do projeto no País em 13 anos. Além da vigilância na fronteira, o militar também citou a fragilidade frente aos ataques virtuais, a maioria, em sites do governo ou instituições bancárias. O cenário é considerado grave e Villas Boas afirmou que vê a crise atual tornar-se “crise social” e de instabilidade no País.
Já não bastasse as declarações serem preocupantes, o superintendente da Polícia Rodoviária Federal de Mato Grosso do Sul, Ciro Vieira Ferreira, reforça a análise do comandante do Exército; no Estado, o efetivo da PRF é aquém do ideal e seria necessário aumento de 100% do número atual e admite que a vigilância na fronteira é deficitária. As ações, então, são feitas de maneira estratégica, cobrindo os pontos considerados mais preocupantes.
O scanner veicular, aparelho para detectar carga suspeita, é utilizado de forma esporádica, segundo a PRF, seguindo até orientação da fabricante.
O problema na região é a extensa fronteira seca e as inúmeras estradas secundárias usadas pelos criminosos. As “cabriteiras” são livre acesso para o contrabando de cigarros, combustíveis, tráfico de drogas e armas e passagem de carros roubados. Mesmo as rodovias que recebem maior atenção das forças policiais, fazem parte do roteiro regular da criminalidade. As apreensões feitas até agora são uma amostra de como as estradas do Estado são importantes na rota do crime: de janeiro até 13 de outubro foram apreendidas 1,3 tonelada de cocaína e 50 toneladas de maconha.
O ideal não é a realidade. Com contingenciamento de gastos, que prejudicam projetos de segurança, e sem o efetivo necessário, é preciso traçar alternativa de fiscalização para tentar coibir o contrabando e o tráfico. Ações pontuais, feitas com todas as forças policiais, deveriam ser realizadas de forma rotineira e sistemática e não como eventos anuais, de resultado emergencial e sem atacar de forma contundente o crime. Enquanto a vigilância for pontual, em “doses medicinais”, infelizmente, quem ganha são os bandidos que fazem da região fronteiriça do Brasil, em Mato Grosso do Sul, o caminho rotineiro e, muitas vezes,eficaz para a criminalidade.