Quando tinha lá pelos meus dez anos, em férias na propriedade rural de meus avós, curioso como toda criança, afastei-me da sede da fazenda para observar um “olho d’água” e deparei-me com uma cena inusitada para mim: de suas águas borbulhantes estava um filhote de uma cobra sucuri de cor amarela esmagando sob seu corpo um sabiá o qual, naturalmente, foi bebericar água e aí surpreendido pela serpentezinha... Aquilo impressionou-me e guardo a cena com a mesma nitidez daqueles anos já longínquos.
A recordação veio-me à mente ao observar que na atual crise política, que abala os alicerces de nossa pátria, o PMDB, tido como o maior partido do país e que se caracteriza por uma pantagruélica fisiologia por cargos e posições em qualquer governo, de há muito vem operacionalizando uma política idêntica às artes de uma sucuri. A fonte não é a de um “olho d’água” e, sim, se assemelha à inesgotável do aquífero Guarany. Claro, os personagens são outros. Lá no “olho d’água” os personagens eram animais irracionais, aqui, pelo contrário, são animais racionais e fecundamente vivos nas suas ambições.
O que vejo – e todos veem – é o quadro político do País sob as intempéries de um implacável temporal a se deteriorar a cada dia que passa. Nesta semana (escrevo na sexta-feira) quatro episódios são significativamente marcantes de que o “quadro” não se sustentará por muito tempo na parede: a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, acolhendo a reclamação das oposições sobre abuso do poder econômico pelas candidaturas Dilma e Temer; o parecer do Tribunal de Contas da União pela rejeição das Contas da presidente Dilma Rousseff relativamente ao ano de 2014, em razão das “pedaladas fiscais”; o vexame da base do governo na Câmara dos Deputados, não dando número em duas sessões para votação dos vetos presidenciais, processo que permanece. Tais episódios de extraordinária repercussão política, tal a fraqueza do governo, abalaram o sistema nervoso da senhora presidente decepcionando-a porque acreditava que o espúrio acordo que fizera com a área fisiológica do PMDB lhe daria tranquilidade para enfrentar as procelas que se aproximam do restante de poder que exerce no Palácio do Planalto – e chora pelo lêdo engano.
O PMDB não mudou sua estratégia desde que se compôs com o ethos do lulopetismo desde 2002. Pragmático, raposa como é, está perseguindo na tática da sucuri, aos poucos, não tem pressa, sobretudo agora que sabe da vulnerabilidade ética e moral de sua vítima ulcerosa, lentamente esmaga a ossatura da presa inerme para engoli-la no tempo certo – antes de 2018. Não é de se duvidar, desprezar a hipótese de que nessa empreitada esteja ao seu lado, como sócio privilegiado, aquele que Leonel Brizola chamou numa tirada gauchesca, muito apropriadamente, o “sapo barbudo” - outro senão o ex-presidente Lula, que já se apresenta estomagado com o poste que assentou em Brasília. Sociedade de interesse escuso, convenhamos.
Afinal, sucuri e sapo não convivem bem na água. Porém, na política e que como a exercem nos dias atuais, PMDB e lulopetismo se entendem muito bem – e como!