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Luiz Fernando Mirault Pinto: "Muito além da lua e do jardim"

Administrador e físico

Redação

24/10/2015 - 00h00
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Volta e meia, um personagem exótico invade nossa casa pela televisão, ocupando por um bom tempo o imaginário das pessoas. Assim foi que, em 1993, em uma novela, em que Marcos Frota se destacou entre os artistas principais, havia o Tonho da Lua, que tinha o hábito de passar seu tempo olhando direto para lua e, de lá, receber admirado a imagem de uma das gêmeas da estória. Sua paixão era tamanha por essa moça, a ponto de desejar ir à lua para viver com ela seu amor platônico. Desempregado, fazia esculturas na areia, tentando auferir algum dinheiro, uma dessas representações mentais novelescas diárias, como se natural fosse a comercialização dessa arte efêmera.

A Lua traz um efeito lúdico ao ser humano, no brilho, na cor, na atração da gravidade, na ação sobre as marés, no crescimento das plantas e, junto ao sol, condenados a viverem em oposição, representam a existência da dualidade do mundo, a das realidades opostas. A Lua se permite ser olhada, sua luz não queima, não ofusca, clareia a escuridão. O Sol é admirado ao nascer e ao se pôr, quando sua luz se torna mais tênue. Talvez por isso que a presidenta deva ter afirmado que “A Lua é muito mais importante que o Sol, porque ela aparece à noite, quando está escuro, e clareia tudo. Já o Sol aparece de dia, quando tudo está claro, ou seja, não tem função nenhuma.” Como ela estava tratando da compra de aviões na época, deve ter recebido alguma informação sueca privilegiada.

Não posso afirmar se de fato a ciência continua a serviço do homem, já que a tecnologia tem avançado rapidamente, em decorrência da globalização, e eu não tenho tido a oportunidade de me inteirar de “muitis assuntis”. Sei que, quando era criança, no colégio, me diziam que a lua era um satélite, não tinha luz própria e refletia a do Sol. Tonho da Lua a achava a luz mágica e via a imagem do seu amor refletido nela. Atualmente, acho que toda opinião deve ser respeitada, conforme a prescrição médica.

É possível que estejamos fazendo pouco caso desses desvarios, a princípio exóticos ou esdrúxulos, talvez porque não estejamos entendendo as entrelinhas das mensagens, como as do jardineiro Chance, um personagem do filme “Muito Além do Jardim”, ingênuo e cujo único contato com o mundo era a televisão. Abandonado à sua sorte, após a morte de seu patrão é adotado por um magnata, que acredita em tudo que ele diz ou não diz, e interpreta seu comportamento como uma previsão econômica a ser adotada na bolsa de valores. Seus meros palpites sobre o tempo, as plantas, são interpretados por analistas como importantes dicas sobre o mundo dos negócios financeiros. 

Precisamos urgentemente de alguém com capacidade intuitiva para analisar e traduzir tais afirmativas e interpretá-las dando o rumo adequado ao nosso desenvolvimento. Sugiro que a escolha recaia sobre um colaborador eclético, pragmático, que tenha ocupado diversas pastas, na educação, no esporte, na ciência e tecnologia, que conheça nosso idioma e as notícias veiculadas como se jornalista fosse, com livre trânsito no Planalto. 

A partir daí, não mais estranharíamos as assertivas sobre a “estocagem do vento”, “a importância da mandioca” e a diferença entre os gêneros “sapiens”, o conceito de “alma coletiva” e outras asserções não muito claras para nós, leigos, mas que devem ter um significado muito importante, incluindo as novas palavras vernaculares.

Nem todo mundo tem a felicidade de viver sempre no mundo da lua, tampouco de dizer o que quer e o que pensa, sem se preocupar com os outros dirão, mas só um cientista louco, um lunático, um artista, ou um aventureiro sonhador seria capaz de pagar uma carona nesse “rabo” foguete, como diria a música. Uma coisa é certa, se utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral para entendermos as coisas, talvez a partir de agora necessitemos do restante para entendermos tais mensagens desconexas. 

 

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