Os olhos da sociedade estão voltados para as palavras “crise de confiança”. Também, pudera: nos tempos modernos, confiança ocupa um espaço essencial. Você confia no médico quando vai se consultar? Confia no político em quem votou? Confia nas instituições? O mercado financeiro também é feito de confiança e, lamentavelmente, quando essa confiança é abalada, pode afetar um país, causando danos a sua economia, e, claro, respingar em toda a sociedade.
Essa sensação está sendo sentida no Brasil, que vive um momento de tantas incertezas no campo da economia e da política. A falta de confiança afeta o nível de investimentos. Dias atrás, a agência de risco Standard & Poor’s rebaixou a nota do Brasil. Nossa nota foi para “BB+”, que significa “categoria de especulação, baixa classificação”. No meio do mês de outubro de 2015, a agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito soberana do Brasil. O País continua a ter grau de investimento pelo critério da agência (embora esteja no último grau), mas a perspectiva da nota permanece negativa – o que significa que novos rebaixamentos podem ocorrer no futuro. A nota passou de “BBB” para “BBB-”. Quanto maior o rating de um país, melhor ele é do ponto de vista de atração de investimento, ou seja: o inverso é verdadeiro.
Não precisa ser especialista para entender e até sentir que a economia brasileira está passando por graves dificuldades. Chama atenção, todavia, que a economia brasileira havia recuperado a estabilidade, o nível de empregos e a distribuição de renda. Pontos-chave para a macroeconomia. O mais grave: o momento atual tem demonstrado, não raras vezes, que “a vaca está indo pro brejo”. Milhares de brasileiros estão perdendo seus empregos, a inflação vem galopando e, assim, a renda deixa de ser distribuída, o País deixa de crescer, e o governo perde arrecadação e diminui seus gastos.
O retrato do Brasil sempre esteve focado na falta de estabilidade econômica, ficando mais nítida essa situação nas décadas de 1970, 1980 e início de 1990. Houve momentos de hiperinflação e muitos planos de estabilidade econômica: o Plano Cruzado, o Plano Bresser, o Plano Verão e o Plano Collor – todos exemplos de fracassos.
Depois dessas experiências mal-sucedidas, veio o Plano Real – no governo do presidente Itamar Franco –, e, a partir de então, a política econômica obteve a condução certa e passou a responder de forma positiva ao controle da inflação.
No entanto, o tempo passou, mudou o governo e a equipe econômica, que, em nosso entendimento, mudou o foco e cometeu alguns erros de gestão e na condução da economia, trazendo um desalinhamento, que gerou um alto preço para toda a sociedade.
Uma variável do preço desses erros veio recentemente, na forma de uma enorme crise de confiança. Observa-se que hoje o consumidor não confia na estabilidade de seu emprego; então, não consome, ou, se o faz (ou já fez), está endividado. O empreendedor, por sua vez, teme a falta de confiança do consumidor e deixa de investir. Os governos – federal, estaduais e municipais – recebem volumes menores de impostos, reduzem seus gastos e refazem seus planejamentos e orçamentos.
Isso tudo gera um ambiente altamente negativo para a confiança do investidor, em especial o estrangeiro. As agências de risco colhem essa chuva de informações ruins e repassam na forma de um rebaixamento do grau de investimento no País – e isso se transforma num tsunami para a comercialização das ações das empresas brasileiras e dos títulos do governo brasileiro.
Achamos que chegou a hora de o Brasil lançar mão do foco somente nos problemas e refletir na busca de soluções. Para sermos uma nação de qualidade, é necessário ter em mente o que a Miriam Leitão escreveu em seu livro “Saga Brasileira”: “A revolução modernizadora não acabou, talvez nunca acabe. Mas quem hoje se aflige, com razão, pelo muito que falta fazer, não tem ideia de como o Brasil já foi”. Talvez a crise venha para nos mostrar que esperar soluções imediatas e fórmulas mágicas seja oportunismo e ingenuidade. A economia brasileira está cansada de padecer desse drama. A solução está na construção de um novo horizonte, cujo ponto de partida é a confiança, pois, onde há confiança, há esperança.