Há poucos anos comprei uma bicicleta ergométrica (denominação imprópria, pois não possui as indispensáveis duas rodas – donde o bi?), a fim de exercitar-me sem sair de casa; antes caminhava na pista da praça Belmar Fidalgo. Porém, recentemente, a máquina apresentou defeito e resolvi que não iria mandar reparar e me desfiz dela, voltando a caminhar fora.
Algumas vezes, para quebrar a rotina de ficar dando voltas e contemplando sempre a mesma paisagem, empreendia caminhadas por ruas da cidade, cada vez numa direção, para ver ou rever lugares diferentes.
Numa dessas, seguia pela rua 14 de Julho, passando pelo complexo da extinta Noroeste do Brasil, no trecho que se inicia numa das entradas para a feira livre, diante das antigas moradias dos ferroviários.
Resolvi indagar de um morador a situação dessas residências e fiquei sabendo que elas foram alienadas pela União Federal, dando preferência aos moradores, geralmente ferroviários aposentados, que se interessaram por adquiri-las.
Num trecho, ao final do conjunto de casas, existia uma abertura no muro que permitia ingressar no terreno das antigas instalações. Resolvi verificar o que havia nas imediações e deparei-me com o prédio da rotunda, como era conhecida uma grande edificação semicircular, atualmente sem uso algum e em precário estado de conservação, sofrendo a ação de vândalos e pichadores.
Não obstante isso, provocou-me admiração aquela sólida construção, resquício de um tempo em que se valorizava o transporte ferroviário, como ainda hoje em outros países mais desenvolvidos.
A palavra “rotunda”, de acordo com o dicionário, possui diversos significados: pode ser a pessoa gorda, corpulenta, obesa, balofa; um pequeno/grande salão sustentado por colunas, de forma circular; praça circular onde desembocam várias ruas ou avenidas, etc. Na terminologia ferroviária, é o local que integra as oficinas de manutenção, dotado de um “girador” onde as locomotivas são manobradas, invertendo- lhes o sentido de direção.
Nas decadentes instalações da saudosa E. F. NOB o girador está localizado na parte externa, um pouco afastado da rotunda. Usualmente, conforme a definição, a rotunda é um prédio circular, ou redondo; o daqui é apenas um semicírculo, como já dito acima.
Antes do imponente prédio, outras construções do conjunto chamam atenção do passante, como o enorme reservatório elevado, que, além de abastecer de água todo o complexo, supria também as velhas “marias-fumaça”, as quais, com o calor de suas caldeiras alimentadas a lenha, transformavam a água no vapor cuja pressão impulsionava os pistões que faziam girar as rodas de aço sobre todos os trilhos da terra, avançando pelos sertões no transporte de pessoas e mercadorias.
Nas lembranças do menino pobre que fui resta a nostalgia de resfolegantes e demoradas viagens nos vagões da segunda classe, com seus duros bancos de madeira, até Aquidauana e Miranda. As deslumbrantes paisagens do percurso faziam esquecer o desconforto das pequenas mas sofridas jornadas.
*Advogado e escritor
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