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Gilson Cavalcanti Ricci: Alma caipira

Gilson Cavalcanti Ricci é Advogado

Redação

09/11/2015 - 00h00
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Caipira era pessoa ingênua, que vivia no sertão desses brasis bravios. Viajar de trem e de “jardineira” pelo interior paulista e mineiro, como muitas vezes fiz nos dias da mocidade, era manter contato direto com típicos caipiras. Apesar de tímidos, eles tinham seus costumes atávicos, e regiam suas vidas dentro da simplicidade, mesmo se dispusessem de patrimônio econômico suficiente a garantir-lhes uma vida de luxo, mas jamais abandonariam o torrão natal para viver em lugares sofisticados.

Hoje em dia, com o grande avanço da televisão pelo Brasil afora, a figura pitoresca do caipira desapareceu do cenário urbano e rural. Surgiu um outro tipo humano, que se mesclou com as “gentes da cidade” a tal ponto de já não ser mais reconhecido no meio da massa popular. O progresso das superestradas de rodagem pavimentadas e o surgimento de grandes empresas de ônibus interurbanos - que substituíram o trem e a jardineira - contribuíram eficazmente com o sumiço do jeca. 

A moda de viola é a ópera caipira, que nos leva a um passado que não deixou marcas. A moda de viola enleva a alma caipira ao cantar tragédias de amores malsucedidos, como a história cruel da Cabocla Tereza. Também, o heroismo de caipiras valentes em disputas sanguinolentas com seus desafetos. Ou então o arrojo de caipiras destemidos na faina do cotidiano, como aquela que retrata a malvadeza de jogar o boi velho às piranhas, enquanto a boiada atravessa o rio.

O caipira era um povo singular e forte. Seu linguajar saudoso nos leva a imaginar que o dialeto caipira fora a língua nativa brasileira, eis que originário da transposição do guarani para a língua falada pelos donos da colônia brasileira. O maior de todos os indícios dessa verdade primordial foi a epopeia dos bandeirantes, os quais falavam a língua dos índios – o guarani - em suas viagens à  procura de ouro e pedras preciosas. Os bandeirantes, para facilitar o intercâmbio com os índios, falavam o guarani por todas as partes por onde andavam, e assim, paulatinamente, foram-se aglutinando as deformações da língua portuguesa falada nos sertões, mesclando-se espontaneamente muitos fonemas de uma língua a outra, surgindo dessa forma o dialeto típico do caipira morador ao longo dos rios paulistas e mineiros, onde a economia progredia mais rapidamente do que nas demais regiões brasileiras graças à intensa movimentação de aventureiros nessas regiões. 

Por força desses fenômenos sociais, ocorridos nos primórdios da colonização brasileira, o linguajar caipira foi um forte elo entre as línguas do branco e do índio. Outro fator preponderante ao surgimento do dialeto caipira foi a catequese realizada pelos padres jesuítas no interior da colônia, especificamente nas missões das províncias de São Paulo e Rio Grande do Sul. A coroa portuguesa, enciumada pelo vertiginoso engrandecimento do guarani no seio da população brasileira, expulsou esses padres a mando do poderoso e temido Marquês do Pombal, simplesmente porque eles difundiam largamente o guarani, mormente nos sermões das igrejas, o que representava uma real ameaça à extinção do português no Brasil.

Não poderia encerrar este modesto artigo sem me reportar à pureza da alma caipira, por exemplo quando o trem morosamente descia a serra apitando até parar na estação. Nesses momentos, caipiras, com aquele linguajar pitoresco, agitavam-se de lado a outro da plataforma, despedindo-se efusivamente dos que partiam, acenando sorridentes até o trem desaparecer de vista. O cheiro da laranja, e da farofa com frango, corria dentro do vagão, enquanto lá fora, num lado e no outro da ferrovia, a paisagem clássica do sertão, com sua exuberante flora e fauna, encantava a vista. À noite, a lua cheia radiante prateava aqueles ermos inertes sob a quietude do luar. Um violeiro caipira, exprimido na segunda classe, cantava baixinho a imortal modinha de Catulo da Paixão Cearense, Luar do Sertão - “Num há ó gente luá cume esse do sertão! Qui sodade do luá da minha terra lá na serra branquejando”... 

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