Existem buracos e buracos. Começando pelo que ocorre em nossa morena capital, observa-se que eles proliferam por nossas ruas e avenidas feito epidemia, em todos os quadrantes, infernizando a vida de todos, ricos, pobres e remediados, católicos, protestantes, judeus e muçulmanos, árabes, turcos, japoneses, italianos, gregos e baianos. São buracos rasos, buracos profundos, buracos circulares, quadrados, retangulares, no asfalto, na terra, nas nuvens, mas estes são obras de arte com que a natureza nos brinda para esquecermos os daqui de baixo.
Existem buracos antigos, novos, de meia idade, desafiando a operação tapa-buracos que o senhor alcaide se recusa a implementar.
Há buracos nas contas públicas em todos os níveis; buracos no bolso do assalariado, por onde escoam seus ganhos cada vez mais reduzidos pelos buracos causados no custo de vida, fazendo sobrar cada vez mais mês no fim do salário, tudo em virtude do buraco que é o pavoroso desastre econômico promovido por administrações cuja incompetência é um buraco sem fundo; os buracos nos orçamentos dos governos e das empresas estatais provocados pela corrupção avassaladora que destrói a esperança dos brasileiros num futuro melhor.
Enfim, buracos para todos os gostos e desgostos. Entretanto, existem buracos cultuados, na forma de atrações turísticas, como o “Buraco das araras”, no simpático município de Jardim, em nosso estado, e o “Buraco das piranhas”, na BR-262, município de Corumbá.
Não se pode esquecer também dos buracos dos queijos suíços, que se descobriu recentemente serem causados pela fermentação provocada por polens do feno, que caem no leite durante a ordenha; dos buracos nos dentes, as tão doloridas cáries; dos buracos nos jeans “descolados”; do buraco na camada de ozônio na atmosfera, causado pelos gases emanados de inúmeras atividades humanas e da flatulência dos animais, que ameaça nossa sobrevivência neste pequeno planeta azul do sistema solar; do jogo de buraco com as cartas do baralho, do qual não entendo bulhufas; dos buracos do golfe, jogo das elites que também não entendo; do buraquinho no corpo da caneta esferográfica, que evita a formação de vácuo no seu interior e o derramamento da tinta.
Existem ainda os famosos “buracos negros” no universo, que, segundo conta o grande cientista Stephen Hawking, são formados por estrelas de massa tão compacta que seu descomunal campo magnético não deixa escapar nem mesmo a luz que elas emitem; no mesmo campo da ciência cósmica, os “buracos de minhoca”, que, na teoria, permitiriam as viagens no tempo através de suas dobras, e, por sua vez, possibilitariam vencer as infinitas distâncias do universo; os imensos buracos no solo em diversos pontos do planeta, que teriam sido causados por meteoros gigantes que se chocaram com a Terra em eras remotas, um deles causando a extinção das espécies vivas, como os dinossauros, há sessenta e cinco milhões de anos.
Deu agora um buraco nas minhas lembranças, o que me obriga a encerrar este papo furado.
*Advogado e escritor
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