A batalha por 2016, estando aparentemente perdida, deflagrou a melancólica tentativa do governo, de salvar o ano de 2017. De 2009 pra cá, já se vão seis anos de zigue-zague na economia, em paralelo com a ineficácia das políticas de corte expansionistas na área fiscal e monetária. A aposta era “plantar” deficit, conviver com um pouco mais de inflação e “colher” crescimento. Caros e inconsistentes – e em alguns casos contraditórios –, os estímulos não surtiram efeito, e o custo da aposta se estenderá, pelo menos, até o final desta década.
A década de 1980 produziu um crescimento total de 16,9%. Considerando as previsões de 2015 e 2016, teremos crescimento de apenas 4% no acumulado desde 2010. Se, em 2017 em diante, tivermos um crescimento médio de 2,5%, o crescimento da década será de 14%. Tamanha mediocridade fará inveja à década perdida.
Mas isso não é tudo. A operação de salvamento de 2017 está ameaçada, principalmente, pela incapacidade de se estabilizar a relação entre a dívida e o PIB, o que deteriora as variáveis psicológicas necessárias para libertar o investimento e o consumo da retração. Sob as condições atuais da economia brasileira, a estabilidade da dívida bruta requereria um superavit primário da ordem de 2,5% do PIB – algo completamente fora de execução.
A incapacidade de reação ocorre não apenas porque o raquítico capital político do governo impede sacrifícios orçamentários ou aumento de tributos, mas principalmente porque, em ambientes recessivos, as despesas nunca conseguem ser cortadas em velocidade maior do que a queda das receitas.
A armadilha da austeridade é bem conhecida: para fazer o ajuste fiscal, é necessário que a economia volte a crescer; mas, para que isso ocorra, é necessário fazer o ajuste. Os desafios são imensos: o deficit nominal do governo totalizou incríveis R$ 416 bilhões de janeiro a setembro, e R$ 532 bilhões em doze meses – o equivalente a 9,34% do PIB. O ajuste fiscal está à deriva, à espera de generosos ventos que possam tirá-lo do lugar.
A volta da saúde das finanças públicas não virá sozinha. A mudança na matriz econômica, quando vier, terá início com as mudanças na relação entre câmbio e salários. “Pagar o pato” via deterioração dos salários e do desemprego é a sina dos ajustes recessivos. Toda vez que as contradições da economia se tornam insuportáveis, invoca-se o mecanismo concentrador de renda como solucionador de última instância. Com desemprego crescente, os salários reais cairão na medida do necessário, para que a rentabilidade dos capitais se estabeleça.
Em paralelo a uma desvalorização cambial suficientemente prolongada, cria-se, ao final de alguns sofridos anos, um ambiente favorável à atividade exportadora e a substituição de importações. O drive exportador anima investimentos, o nível de atividade sobe, e a arrecadação tem algum alento. Quando isso ocorrer, provavelmente nos últimos anos deste mandato presidencial, a dívida bruta estará nas alturas – muito embora a dívida líquida seguirá em relativa estabilidade, pelo efeito patrimonial positivo das reservas cambiais.
Da velocidade destes fenômenos, dependerá o destino da próxima década. Se é que a retomada puder chegar antes da implosão da dívida, a década seguinte permitirá crescimento moderado. Senão, o que virá a seguir é uma economia de renda média altamente endividada, sujeita a choques e contágios, com baixo nível de industrialização, que envelhece rapidamente e ainda mais vulnerável ao que acontece no resto do mundo. Triste fim de uma aventura expansionista.