Domingo passado (15), ao fim do primeiro dia da reunião do G20 em Antália, na Turquia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em geral, sisudo e de poucas palavras, saiu com uma tirada inédita ao comparar a atual recessão do Brasil – o PIB, que pela previsão oficial deve cair ao menos 2,8% em 2015 – e as dificuldades do governo Dilma em aprovar o pacote de ajuste fiscal, que tramita no Congresso Nacional, com trecho da música de Chico Buarque, “A Banda”.
Disse ele: “Por que o PIB está caindo? Porque hoje todo mundo parou. O homem sério que contava dinheiro parou. A namorada que contava estrelas parou. Para quê? Para ver o que vai ser votado. Enquanto não resolver essa questão, todo mundo parou. PIB é fluxo, você não toma as ações e o PIB naturalmente parou, é fluxo. Não é que esteja nada errado exatamente na economia, só que ele parou. Até o faroleiro parou. Muito bem, alguns não”.
Mas, nos bastidores do poder, pergunta-se: Por que razão o ministro trouxe à baila a música de Chico Buarque, quando alguns setores da esquerda brasileira e do PT – além do ex-presidente Lula, defendem, em vez do ajuste fiscal atualmente em curso, a ampliação do crédito e a troca do ministro Levy por Henrique Meirelles como principais medidas para resolver a crise econômica brasileira (além, é claro, da aprovação da nova CPMF!)?
A resposta pode estar na fala da presidente Dilma Rousseff, ao encerrar sua participação na cúpula do G20, na Turquia, antes de retornar ao Brasil: “Levy fica e a CPMF não é para gastar, mas para crescer mais”. E ela completou: “Muitos não queriam aumento de impostos, mas a lógica da CPMF é parte fundamental do grande esforço de reequilíbrio fiscal”.
Aliás, como havia dito o próprio ministro Joaquim Levy em seu discurso, no dia anterior: “O acerto das contas públicas é o primeiro passo para o programa que ele chama de ‘1, 2, 3 do crescimento (2 é a retomada da demanda, e 3, evitar um crescimento de curta duração)’”. Tudo conforme estabelece a cartilha neoliberal desde priscas eras.
Evidente que, após a gastança dos últimos anos – especialmente a do ano passado, com a realização da Copa do Mundo de Futebol (por que, pelo menos, não saímos vitoriosos dela, hein?) e das eleições presidenciais – além da recessão que o Brasil atravessa atualmente, parece não haver outra saída a não ser tomar o remédio amargo oferecido pelo atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e pelo governo Dilma: arrocho salarial e austeridade fiscal.
Agora é rezar para que, a exemplo do que acontece ao fim da letra de “A Banda” de Chico Buarque, o povo não venha a cantar após o arrocho de Joaquim Levy: “Mas, para meu desencanto, o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar cantando coisas de amor”.