Florisvaldo era ferroviário, maquinista da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB de tantas recordações. Casando-se com Edvirgem (assim mesmo – nasceu em setembro), teve três filhos: duas meninas, gêmeas nascidas em 1968, às quais deu os nomes de Penilene e Leide Madona, e um menino, de nome Ringostar, que veio ao mundo em 1970. Sua mulher era uma dona de casa muito trabalhadora e dedicada ao lar: além de criar os filhos, haja vista as constantes ausências que o trabalho impunha ao marido, era exímia confeiteira, fazendo bolos, doces e salgados, que vendia semanalmente na feira e para os vizinhos, amigos e conhecidos, ajudando no orçamento do lar e nas despesas de educação dos rebentos.
Com o trabalho do casal a família gozava um padrão de vida sem luxos, mas também sem apertos financeiros, permitindo até desfrutarem de alguns pequenos confortos e fazerem certa economia, aplicando as sobras do fim do mês numa caderneta de poupança.
O ferroviário começou a trabalhar aos dezoito anos de idade como foguista nas velhas locomotivas a vapor, as “marias-fumaça”. Laborando ao lado do maquinista, com o tempo aprendeu as funções deste e foi promovido ao cargo com vinte e um anos de idade. Com a chegada das modernas locomotivas diesel-elétricas, fez um curso de aperfeiçoamento na sede da ferrovia em Bauru e, orgulhoso, passou a pilotar uma dessas possantes.
Ele era amante de música e, nas longas jornadas no comando de sua máquina, transportando passageiros na rota Bauru a Corumbá, jamais se separava de seu radinho de pilhas, através do qual se deleitava ouvindo o variado repertório irradiado pelas grandes emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Apesar da pouca instrução, apreciava quase todos os gêneros musicais, mas o seu preferido era o rock and roll; sonhava ser baterista, mas suas condições não permitiam que ele se dedicasse ao aprendizado do instrumento e muito menos à aquisição de um. A banda de rock de que mais gostava era o formidável quarteto surgido em Liverpool, na Inglaterra.
De folga em casa, ouvia seus LPs e compactos na eletrola que comprara em longas prestações no carnê da Casa Vitor, de Nelson Borges de Barros. Sua mulher também tinha lá suas preferências musicais: Nelson Gonçalves, Lupiscínio Rodrigues, Dalva de Oliveira e Elizeth Cardoso.
As duas filhas formaram-se em cursos superiores, casaram-se e passaram a ter vida própria, deixando o lar familiar. Quanto ao rapaz, não era chegado aos estudos e concluiu o segundo grau a duras penas.
Trabalhava como bancário e gostava mesmo era de música. Incentivado pelo pai, juntou-se a dois amigos e criou uma banda de rock, com o nome “On the rails” (“Nos trilhos”). Assim mesmo, em inglês, como deve ser. Tocava justamente... bateria!
O maquinista aposentou-se e realizou antigo sonho: comprou um sítio à beira do Rio Aquidauana, para onde mudou-se com a mulher e, daí em diante, passava os dias pescando e ouvindo suas músicas preferidas, sempre com o radinho de pilhas.
*advogado e escritor ([email protected])