Aos 73 anos, Sartre caminha com dificuldade, está praticamente cego. Vive sozinho, num pequeno apartamento, onde raramente concorda em receber alguém, a não ser os amigos que considera sua família. Gosta de música. Quando esteve no Brasil, na década de 50, Vinicius de Moraes organizou, em seu apartamento, uma sessão de bossa nova. Sartre achou a música despojada, acompanhando com atenção os irmãos Castro Neves e mais um grupo de moças e rapazes que, durante mais de duas horas, tocaram para ele.
Para que serve a saúde?
– disse, certa vez, a uma jornalista que lhe perguntou se a velhice e as doenças não o deprimiam. “É melhor escrever um livro, é melhor produzir uma obra de fôlego, importante para nós mesmos, do que ter boa saúde.”
Em seu apartamento, os livros estão em todos os espaços. Esses livros, que ele não mais decifra, fizeram de Sartre um dos mais discutidos homens de nosso tempo, principalmente para os que descobriram, por meio dele, o existencialismo, os conceitos de liberdade e de responsabilidade.
Amado por uns, odiado pelos que detinham o poder, por causa das contínuas provocações, Sartre nunca se importou com os sentimentos de aversão que despertou.
Certa vez, quando colocaram uma bomba na porta de seu apartamento, limitou-se a mudar de residência. É um personagem, um protagonista da história de nosso tempo, que gosta de suscitar indiferenças, mas que permanece como centro de indagações.
A velhice é o que mais incomoda Sartre, e o fato de não poder ler nem escrever. Embora Simone de Beauvoir, sua companheira de mais de 50 anos de vida em comum, grave e transcreva- lhe os pensamentos, Sartre acha que nada substitui para o autor o prazer das palavras se juntando no papel, relendo-as depois com inflexões próprias.
Tem certos momentos de amargura, mas nunca de abatimento. O corpo, com suas misérias, é uma coisa; a vida é outra. Não se considera um velho como os outros que permanecem indiferentes às mudanças ou que vivem se queixando continuamente. Seus amigos são todos muito mais jovens do que ele. Alguns têm trinta anos, como Pierre Victor, outros, como Jacques Bost, estão na casa dos sessenta. Apesar das limitações da idade e das doenças, sente-se muito mais preso na terra do que quando tinha vinte anos. Durante toda a vida, Sartre quis ser apenas um homem livre. Todos os gestos, todas as obras foram afirmações de liberdade, de repúdio aos que pretenderam ter poder sobre os outros.
Em seu último livro, “Poder e Liberdade”, que produziu com Pierre Victor, demonstra o que seria uma sociedade sem estado. Neste momento, rejeitando os horrores dos grupos terroristas, valorizo ainda mais a figura emblemática de Jean-Paul Sartre, para quem a liberdade e o respeito pelo outro eram as regras fundamentais da humanidade.