Não há como se alegar desconhecimento do que provoca a infestação do mosquito Aedes aegypti e, como consequência, o aumento das notificações de dengue, chikungunya e zika vírus
Campo Grande enfrenta mais uma epidemia de dengue, com 52% dos casos notificados já confirmados este ano. É inadmissível, depois de tanto tempo, que nem a população nem as autoridades sanitárias tenham aprendido a lição no combate à doença. Agora, o desafio é ainda maior, pois o mosquito Aedes aegypti é o mesmo transmissor da chikungunya e do zika vírus – o último, ligado aos casos de microcefalia registrados inicialmente no Nordeste e que começam a se espalhar pelo País.
Não é de hoje que a cidade convive com surtos de epidemia da doença. Em 2007, a Capital registrou 45,6 mil casos, dos quais 26 mil ocorreram somente no início do ano. Em 2010, os índices voltaram a surpreender, superando 48 mil registros de dengue, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Em 2013, novamente, a doença alastrou-se por Campo Grande, com mais de 15 mortes registradas, sendo necessário decretar emergência para compra de material e medicamentos sem licitação. Eram aproximadamente mil diagnósticos positivos, por semana, para a doença.
As crescentes notificações e mortes assustaram a população e deixaram o sistema de saúde alerta por um tempo. Os números sofreram queda significativa e, em alguns períodos, chegaram a patamar de estabilidade, com infestação predial menor a 1%. Agora, o prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, diz que não foi feito o dever de casa e, com isso, a epidemia já é realidade na cidade. Porém, não se pode jogar a responsabilidade apenas ao gestor anterior. O trabalho de combate ao mosquito transmissor deve ser ininterrupto. Não foi o que aconteceu. O embate político com a Câmara de Vereadores e os escândalos sempre foram a tônica da administração de Bernal e, depois, de Gilmar Olarte. Enquanto isso, o sistema de saúde pública mergulhava no caos. Junta-se a isso o descaso da população, que, tem sim, grande parcela de culpa na infestação do mosquito. São recorrentes os flagrantes feitos pelo Correio do Estado, de lixo e entulhos sendo jogados nas ruas e em terrenos baldios, o que permite o acúmulo de água e a proliferação do Aedes aegypti. Não se pode dizer que é falta de informação. Fazendo paralelo à história do Brasil, em 1903, Oswaldo Cruz enfrentou a classe médica e a população, ao mudar a forma de combate à febre amarela. Acreditava-se que a doença era transmitida pelo contato com roupas, suor, sangue e secreções dos doentes. Foi ele quem suspendeu as desinfecções e implantou medidas sanitárias com brigadas que percorreram casas, jardins e quintais, para eliminar o foco de insetos. Em 1907, a febre amarela estava erradicada no Rio de Janeiro.
Agora, não há como se alegar desconhecimento do que provoca a infestação do mosquito Aedes aegypti e, como consequência, o aumento das notificações de dengue, chikungunya e, mais recentemente, zika vírus. Já passou da hora de todo mundo assumir sua parcela de responsabilidade em um trabalho primário, que é manter casas e quintais limpos. Como a população pode exigir algo em relação às autoridades de saúde, se não cumpre a medida do portão para dentro? No caso do sistema público, jogar a culpa em gestões passadas também não é desculpa. Ninguém está isento da epidemia.