O que foi visto ontem, em Campo Grande, infelizmente, vai acontecer muitas vezes ainda. A cidade pena pela falta de continuidade nos projetos e pelo abandono
Em pouco mais de uma hora, a população de Campo Grande reviveu pesadelo que era recorrente: transbordamento de córregos em avenidas por causa das chuvas. Durante muitos anos, qualquer temporal transformava-se, rapidamente, em prejuízo para muitos, com alagamento de veículos e casas. Na Via Park, a imagem das águas invadindo as avenidas Antônio Maria Coelho e Mato Grosso preocupa, já que se pensava que o problema tinha sido sanado, pelo menos naquele trecho.
A chuva atingiu principalmente os bairros Tiradentes e Octávio Pécora, além da região da Via Park e da Avenida Ernesto Geisel. Causa comoção a foto que ilustra a capa desta edição do Correio do Estado, em que uma moça, grávida de quatro meses, está agarrada a uma placa, esperando pela ajuda do Corpo de Bombeiros. Quem se arriscou a passar pelas águas acabou ilhado. Dentro das casas, moradores tiveram pouco tempo de reação e muitos perderam praticamente todos os móveis. O corpo de um homem foi encontrado no Rio Anhanduí e a causa provável é que ele tenha sido arrastado pela enxurrada. No início da noite, o temporal voltou a cair, causando temor.
O problema de transbordamento de córregos e alagamentos é crônico em Campo Grande. Já foi muito pior, claro, mas investimentos foram feitos ao longo dos anos na tentativa de minimizar os efeitos causados pelas chuvas. Porém, vê-se que ainda não são suficientes. A estrutura de drenagem construída em pontos críticos, como na Avenida Via Park, não suportou o temporal de ontem e foi transbordada. Foram 49 milímetros de chuva, que evidenciaram o quanto ainda é necessário investir no sistema de escoamento e drenagem. Alia-se a isso o entupimento constante das bocas de lobo. A exemplo da questão sanitária, em relação ao recrudescimento dos casos de dengue, já abordada nesta página, é preciso comprometimento do poder público e da população. Os moradores precisam fazer sua parte, não jogando lixo nas ruas e nos terrenos.
O plano de pavimentação e drenagem de bairros precisa ser retomado. O problema é que vários projetos estão comprometidos com a falta de verbas federais ou, simplesmente, estão suspensos, em decorrência dos sucessivos escândalos de corrupção, que paralisam a cidade desde a eleição de Alcides Bernal. Um exemplo disso, que também pode ser visto hoje, no Correio do Estado, é o asfaltamento parcial de ruas. A obra parou, muitos moradores tiveram a expectativa frustrada e, hoje, convivem com lama nos períodos de chuva e poeira durante a seca. A ironia é ver que o tão sonhado asfalto acaba a poucos metros da porta de casa.
O que foi visto ontem, em Campo Grande, infelizmente, vai acontecer muitas vezes ainda. A cidade pena pela falta de continuidade nos projetos e pelo abandono. Enquanto a administração e a Câmara de Vereadores continuarem focadas nos próprios interesses, em eterna troca de farpas e provocações, a cidade e a população vão continuar sofrendo com as agruras da ingerência.