Ele costumava viajar com frequência para sua fazenda no Pantanal, pilotando seu pequeno avião monomotor, quase sempre sozinho. Seguia sobre as planícies alagadas da imensa região, quando, voando baixo, contemplava as belezas selvagens, como as árvores embranquecidas pelos milhares de garças e tuiuiús; as araras azuis, vermelhas ou verdes voando aos bandos; os jacarés em plácida pose nas margens das lagoas.
Planava sobre o manso rio Paraguai, que vai cortando, sinuoso, o vasto alagado em meio àquela imensidão verdejante. De cima, recebia o reflexo do sol brilhando na superfície das águas. Fotografava ou gravava belíssimas imagens que mandava para amigos no país e no exterior.
Certo dia, porém, seus devaneios transformaram-se em desagradável acontecimento: o motor da aeronave começou a falhar, ele não conseguia recuperá-lo e começou a perder altura rapidamente. Procurou um descampado onde pudesse fazer um pouso de emergência, mas não houve tempo: como vinha a pouca altitude, rapidamente atingiu o solo, ou melhor, a água, e precipitou-se num charco, onde o avião parou.
O trem de pouso manteve-se inteiro – era do tipo fixo, ou “canela seca” – e a cabine ficou alguns centímetros acima da linha d’água. Respirando aliviado, ficou de olhos fechados por alguns instantes; quando os abriu e olhou o ambiente em volta, viu-se cercado de grandes e ameaçadores jacarés que pareciam apenas aguardar que ele abrisse a porta para saborearem um lauto almoço.
Um pouco afastada dali viu uma pequena elevação coberta de vegetação, onde duas majestosas onças-pintadas pareciam contemplar a situação. Tentou acionar o rádio comunicador e percebeu que ele estava sem energia: deduziu que, com o choque, a bateria tivesse se desconectado. Assustou-se: ali, sozinho, preso dentro do avião, sem qualquer comunicação e rodeado de feras.
Sua única esperança era ser visto de outra aeronave ou, talvez, por algum morador de fazenda próxima. Sem opção, permaneceu na cabine à espera de que algo acontecesse. O tempo foi passando e nada! Sentiu fome e recorreu a um pacote de biscoitos que sempre levava a bordo.
Tinha também um recipiente com água, mas esta não seria problema ali. Mais tarde, sentiu necessidade de esvaziar a bexiga. Resolveu subir sobre a asa alta para aliviar-se e tentar enxergar um pouco mais longe.
Abriu a porta devagar, observando os jacarés próximos, que não se mexeram. Esgueirou-se para fora, agarrou-se à parte superior e alçou o corpo até alcançar o topo, onde pôs-se de pé. Passeou o olhar em volta e tudo o que viu foi a imensa planura alagada, com raras elevações e árvores do cerrado. Sentou-se na asa e ficou meditando sobre a situação. Dois dias depois, desesperado, deixou um bilhete narrando o acontecido e atirou-se na água para ir procurar ajuda. Depois de uma semana um avião de busca e salvamento localizou a aeronave. Um helicóptero foi enviado para o resgate, mas ele não estava no local. Intensas buscas pela região foram infrutíferas. Nunca mais foi visto.