Teme-se que as investigações tenham sido prejudicadas diante da ação precipitada de encaminhar o relatório e do anseio desenfreado de conquistar espaço na mídia
Esperava-se, no mínimo, que o relatório de 270 páginas da Operação Coffee Break tivesse elementos suficientes para comprovar o esquema de compra de votos dos vereadores, para cassar o prefeito Alcides Bernal. Entretanto, a investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) já esbarra em um grave problema: as apurações ainda não foram concluídas; mas, mesmo assim, foram encaminhadas à Procuradoria-Geral de Justiça. O documento deveria ser sigiloso, mas as informações já se tornaram públicas, em mais um episódio dos recorrentes vazamentos de dados das operações.
Talvez, a pressa em fazer mídia esteja sendo priorizada em detrimento da real necessidade de aperfeiçoar as investigações. Por isso, a preferência para que o relatório chegasse à TV Morena, afiliada da Rede Globo, em razão das chances de alcançar maior visibilidade em nível nacional. Acompanhamos situação semelhante recentemente, quando dados mais aprofundados foram enviados ao “Fantástico”, sobre esquema de exploração sexual de adolescentes, que envolvia políticos e empresários da Capital. O sigilo foi explicitamente quebrado, e nada foi feito.
É urgente a necessidade de investigar também a autoria dos vazamentos, para que não haja prejuízo a essa e a futuras apurações, tampouco exposição desnecessária de pessoas supostamente envolvidas, sem que tenham sido formalmente acusadas. O ex-governador André Puccinelli e o ex-prefeito da Capital Nelsinho Trad, por exemplo, foram citados em conversas e mensagens de textos dos demais envolvidos na Coffee Break, mas não há no relatório nenhum diálogo deles que possa ser usado como prova.
Teme-se, portanto, que as investigações tenham sido prejudicadas diante da ação precipitada de encaminhar o relatório à Procuradoria-Geral e do anseio desenfreado de conquistar espaço na mídia. Uma investigação sobre algo tão sério não pode ter como base meras conversas, ilações ou suposições. Se os investigadores do Gaeco acharam indícios, mas não tinham provas concretas, deveriam, certamente, aprofundar as apurações. O coordenador do Grupo Especial, promotor Marcos Alex Veras, teria obrigação de entregar o relatório concluído e com elementos suficientes para denunciar à Justiça todos os acusados; porém, aponta a necessidade de mais diligências.
É necessário apurar também as demais informações que surgiram na fase do inquérito, como a denúncia de que Bernal teria tentado comprar vereadores.
Estamos nos referindo a uma denúncia grave, em que vereadores eleitos como representantes do povo são acusados de associação criminosa e corrupção, em esquema tramado com empresários, para cassar o mandato de Bernal. Por isso, a importância de tratar o caso com seriedade. A sociedade precisa confiar que as denúncias serão comprovadas, algo preocupante diante do relatório inconcluso e dos privilégios para conquistar mais espaço na mídia. Envolver nomes em suposições, tornando-as públicas, só fará aumentar a sensação de impunidade, algo que já incomoda tanto os brasileiros expostos diariamente aos escândalos de corrupção.